quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

EM DOIS FILMES,A CARTOGRAFIA DOS AFETOS

Cena de “Ventos de Agosto”
Em “Os Amigos”, personagens vivem saga de um dia, numa S.Paulo congestionada e caótica. “Ventos de Agosto” surpreende por imagens fortes e originais

Em dois filmes, a cartografia dos afetos


A expressão “cinema dos afetos” se banalizou nos últimos tempos, mas em poucos casos ela é tão apropriada quanto para qualificar a filmografia de Lina Chamie. Seu novo filme, Os amigos, é a prova cabal disso.




Quem conhece os longas-metragens de ficção anteriores da diretora (Tônica dominanteA via láctea) sabe que ela se empenha numa espécie de cartografia afetiva da cidade de São Paulo, por onde se deslocam personagens movidos pela carência e pela potência do afeto.
Em Os amigos a ação se concentra num único dia, balizado por dois acontecimentos importantes na vida do arquiteto Theo (Marco Ricca): o enterro de um velho amigo de infância e o aniversário do filho de uma amiga (Dira Paes). Entre um e outro, Theo se locomove por uma cidade congestionada e caótica, em que todas as estações do ano alternam-se no mesmo dia. Essa jornada é entremeada por flashbacks da infância e cenas de uma adaptação teatral da Odisseia representada por um grupo de crianças.
Saga urbana
Desnecessário dizer que a própria Odisseia (o tema do acidentado e perigoso retorno ao lar) e sua versão moderna, o Ulisses de Joyce (“a volta ao dia em oitenta mundos”, para dizer como Cortázar), são a referência e a bússola dessa modesta saga urbana.
Lina Chamie e Marco Ricca na filmagem de “Os amigos”
A habilidade de Lina Chamie consiste em manter coeso e envolvente seu conjunto de focos narrativos (que inclui o pequeno drama da empregada doméstica de Theo, numa viagem de ônibus pela cidade alagada), sem perder o ritmo e a vibração poética.Na dialética entre concentração e dispersão que esse tipo de construção narrativa pressupõe, talvez haja uns poucos momentos dispensáveis e frouxos (como os diálogos com um jovem casal de clientes, no escritório de Theo, ou a discussão deste com um engenheiro sobre a reforma de uma escola), mas em geral o olhar afetuoso e poético da diretora mantém o edifício em pé. Tudo conflui, como se verá, para a sutil e permeável fronteira entre a amizade e o amor (no sentido erótico e carnal da palavra).
Faltou dizer que a música, como sempre no cinema de Lina Chamie, cumpre um papel fundamental nessa ponte entre o cotidiano e o mito atemporal construída pelo filme. Por outro lado, dizer que Marco Ricca e Dira Paes são atores formidáveis é chover no molhado. O que chama a atenção aqui é o visível entrosamento, o prazer de contracenar que traduz lindamente a ternura entre os personagens.
Ventos de agosto
Uma abordagem bem distinta, mas igualmente poderosa, de ambivalentes relações humanas e de interação entre personagens e seu meio encontra-se em Ventos de agosto, primeiro longa de ficção do pernambucano Gabriel Mascaro, conhecido por documentários como Avenida Brasília Formosa Doméstica.

Aqui, acompanha-se de modo distendido – e aparentemente descosturado – o dia a dia de uns poucos personagens num vilarejo no litoral de Alagoas. Jeison (Geová Manoel dos Santos) trabalha catando cocos e, nas horas vagas, pratica uma pesca submarina artesanal, em busca de polvos e lagostas. Sua namorada, Shirley (Dandara de Morais), que já morou na cidade grande, acompanha-o no barco, dirige o caminhãozinho do coqueiral e cuida da avó idosa.
Tudo se passa como que num tempo fora do tempo, em que signos da modernidade (celular, iPod, música pop) convivem com ritmos e costumes arcaicos. Esse contraste ganha realce quando entra em cena um pesquisador (o próprio Mascaro) empenhado em gravar os sons do local, em especial os turbulentos ventos de agosto.
Não ficamos sabendo quem é esse forasteiro, nem o motivo de sua pesquisa. Tampouco sabemos se é dele o cadáver que aparece na praia. O que importa é que o destino desse corpo assume um caráter quase surreal, de humor negro e desconcertante, banhando os personagens numa nova luz.Narrativa aberta
Ao contrário de Os amigos, que acaba por amarrar todos os seus pontos numa narrativa circular, Ventos de agosto permanece aberto, num sentido bastante radical. Parece que o filme poderia continuar indefinidamente, revelando a cada sequência novos aspectos e belezas daquele ambiente físico e humano.
Dito assim, pode-se dar a falsa impressão de monotonia, mas a todo momento uma imagem forte, original e bela – como os relâmpagos que iluminam o mar revolto e os estragos do vento numa noite de tempestade, ou os corpos nus dos jovens amantes filmados do alto sobre os cocos do caminhão – impacta a retina e incendeia a imaginação do espectador. É o que se costuma chamar de epifania.

Por José Geraldo Couto, do Blog do IMS

Fonte:http://outraspalavras.net/destaques/em-dois-filmes-brasileiros-a-provocante-cartografia-dos-afetos/

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

OLFATO E SEXUALIDADE SEGUNDO A NEUROCIÊNCIA

óleo sobre tela-por roberto Ferri
Olfato e Sexualidade
jajyu body painter japan
Introdução
A vivência sexual das criaturas é algo consolidado pela evolução como premissa maior para a perpetuação de uma espécie.
Tal situação é permeada por diversos fatores que influenciam na forma, frequência e momento em que a sexualidade irá se manifestar através de uma interação com outro indivíduo. E as vias disponibilizadas pela Natureza aos seres sexuados no planeta para chegarem até ao contato com o próximo de maneira sexualmente específica são delineados por processos físico-químicos, que se utilizam dos sentidos de cada um para serem interpretados e se transformarem em respostas claras e efetivas pelos organismos.
Dentre tais sentidos, nos depararemos com o Olfato, responsável pela captação e intepretação de odores oriundos do ambiente, outras criaturas e do próprio corpo. Diversos estudos sugerem que um papel central é desempenhado pelo olfato no que tange a sexualidade e sua manifestação, existindo vertentes de pesquisas que apontam para a participação de certos tipos de feromônios exalados por machos e fêmeas no despertar da libido e na promoção ou não da ovulação¹.
Flowers-by Georgia O'Keefe
Flowers-by Georgia O’Keefe
A função olfativa
O sentido do olfato depende do epitélio olfativo, que contém receptores neurais, células olfativas especializadas, que projetam cílios olfativos responsáveis pela detecção de diferentes odores, embora os mecanismos de ativação desses cílios olfativos sejam pouco conhecidos.
A adaptação olfativa, proveniente do próprio sistema nervoso central, é grande, sendo o cheiro percebido em um primeiro momento e, após, não mais sentido. Assim, a qualidade e a intensidade da percepção do cheiro dependem do estado anatômico do epitélio nasal bem como do sistema nervoso central e do periférico.
Os odores são memorizados a partir do próprio processo de aprendizado, sendo fatores importantes na seleção alimentar e em processos e experiências emocionais. Assim, podemos dizer que existe um aprendizado de odores, relacionado diretamente às experiências individuais podendo eles, inclusive, alterar estados afetivos, sendo relacionados com comportamentos social e sexual. Existem, assim, dados importantes a partir dos quais podemos dizer que as memórias evocadas pelos odores são distintas de outras evocações devido a sua potência emocional.
O olfato e o sistema nervoso
Vias olfatórias
Vias olfatórias
O processamento dos estímulos captados pelas células olfativas ocorre, basicamente, em duas regiões distintas no encéfalo: a Área Olfatória Medial e a Área Olfatória Lateral66
A área olfatória medial compõe-se por um grupamento de núcleos imediatamente anterior ao hipotálamo e abriga o Sistema Olfatório Muito Antigo, responsável por repostas primitivas, como a salivação ou impulsos emocionais primitivos ligados à olfação. Por sua vez, a área olfatória lateral, constituída principalmente pelocórtex pré-piriforme, córtex piriforme e pela porção cortical do núcleo amigdaloide, é a sede de dois outros sistemas, o Sistema Olfatório Antigo e o Sistema Olfatório Recente. O primeiro mostra-se responsável por respostas menos primitivas do que as do sistema muito antigo, manifestando-se em, por exemplo, uma aversão absoluta a certo alimento que provoque náusea e vômito. Já o segundo, o sistema recente, tem sua atividade relacionada às análises conscientes de odores, como identificação e distinção de substâncias 66.
vias olfatórias
vias olfatórias
Em relação à disposição destes sistemas dentro do Sistema Límbico, nota-se que o sistema muito antigo está localizado, mais especificamente, na porção mediobasal do encéfalo – região do sistema límbico relacionada a comportamentos mais básicos -, que o sistema antigo atinge partes menos primitivas do sistema límbico – como o hipocampo – e que o sistema recente alcança regiões mais corticais, as quais processam percepções e análises conscientes tanto da olfação quanto dos outros sentidos. 66
epitélio olfatório
epitélio olfatório
A memória olfativa e a sexualidade
óleo sobre tela-por roberto Ferri
óleo sobre tela-por roberto Ferri
O ser humano possui dois tipos básicos de memória, a de curta duração e a de longa duração. A primeira remete-se a processos onde pouca quantidade de informação é armazenada e por tempo limitado, como lembrar-se do cardápio no café da manhã. A segunda, a memória de longo prazo, guarda quantidades bem maiores de informação e por tempo67-69. A transformação de memórias curtas em memórias longas acontece através de um referencial formado, essencialmente, por dor e prazer, de modo que, quando uma determinada experiência proporciona ao indivíduo uma sensação prazerosa ou dolorosa, o sistema nervoso dele registra os eventos que o levaram até tal sensação.66.
Uma subdivisão importante das memórias de longo prazo são as memórias explícita e implícita. A explícita é responsável por uma evocação consciente de alguma informação, como a recordação da comemoração de um aniversário, por exemplo. A região cerebral utilizada para a construção deste tipo de memória é o hipocampo. Em seu turno, a memória implícita agrupa as lembranças que vêm à tona inconscientemente, como a sequência de movimentos necessária para se caminhar. Seu processamento se dá, principalmente, na amígdala 71.
sistema límbico
sistema límbico
O fato de a memória explícita ser processada no hipocampo, mesma região onde se processa o sistema olfatório antigo, e da memória implícita ser processada nas amígdalas, bem próximo dos núcleos onde se processa o sistema olfatório muito antigo, no sistema límbico, leva a crer que odores que provocam respostas menos instintivas – como, por exemplo, a recusa a um prato com camarão por este ter causado desconforto intestinal em situação pretérita – nos seres humanos são armazenados na memória explícita e que os odores quais desencadeiam reações mais primitivas – como sentir o cheiro de determinado alimento e, a partir disso, ter salivação -, por sua vez, são armazenados na memória implícita. Estudos de desenvolvimento e pesquisa transcultural também apontam para esta conclusão9. Tendo este contexto em vista e também o de que o estímulo sexual caracteriza-se como um dos mais primitivos nos seres vivos, é possível assumir que o armazenamento de odores relativos à sexualidade se relaciona à memória implícita. Assim, quando um odor específico de caráter sexual é identificado pelo epitélio olfativo toda a resposta fisiológica decorrente ocorre em um nível inconsciente.
O órgão Vomeronasal
órgão vomeronasal
órgão vomeronasal
O órgão vomeronasal é uma estrutura quimiorreceptora localizada na base da cavidade nasal que é responsável pela transdução de feromônios em sinais elétricos com a finalidade de regular as funções sexuais, hormonais e reprodutivas nos mamíferos7.
Kang, Baum e Cherrymostraram em estudos que a remoção do órgão em Cavia Porcellus diminuiu a atração sexual mediada por sinais químicos contidos na urina das fêmeas nas semanas subsequentes ao procedimento, sugerindo que tal constatação dá suporte à leitura de que a inexistência do componente vomeronasal nos mamíferos interfere na atividade sexual dos mesmos8. 
Diferenças de sexo na detecção de odor
Duas figuras-por Egon Schiele, 1911
Duas figuras-por Egon Schiele, 1911
Com raras exceções 33-34 as investigações publicadas de diferenças sexuais no limiar olfativo de sensibilidade relataram maior sensibilidade feminina ou não diferenças sexuais na sensibilidade, dependendo do odorante. Estudos como de Toulouse e Vaschide 35verificaram que as mulheres são mais sensíveis do que os homens para o odor de cânfora, no qual, para homens, a concentração mínima perceptível em água foi de 9 partes por 100.000, enquanto que para mulheres esse valor foi de 1 parte por 100.000 .Com resultado semelhante, Exaltolide 37descobriu uma maior sensibilidade da fêmea para uma ampla gama de compostos, incluindo a acetona, o 1-butanol, 2 – metilo, 3-mercapto-butanol, etanol, citral, 1-hexanol, sulfureto de hidrogénio, 1-octanol, pentilo etanol, acetato de fenilo, piridina, e m-xileno 38-46.
Punter31 examinou 58 compostos de publicações, e observou (p. 233), “Os dados sugerem que as mulheres são mais sensíveis (embora não estatisticamente significativo)”. Assim, a avaliação razoável da literatura citada sugere que as mulheres, em média, são mais sensíveis do que os homens para alguns odores, embora as diferenças entre sexos não sejam grandes.
Influências do ciclo menstrual na sensibilidade olfatória
Le Magnen36 foi o primeiro a analisar sistematicamente as influências do ciclo menstrual na sensibilidade olfativa humana. Em um experimento, ele testou limites para Exaltolide (fragrância) através de 10 ciclos menstruais de cinco mulheres. As medições foram feitas a cada dois ou três dias. Embora um aumento na sensibilidade fosse notado em todos os ciclos, nos dias seguintes, as menstruações sofreram considerável variabilidade no início, deslocamento, velocidade e mudança onde este aumento estava presente. Em alguns casos, a sensibilidade atingiu logo após a menstruação, enquanto que em outros, ocorreu muito mais tarde. Em três de nove casos, um segundo pico de sensibilidade ocorreu durante a fase lútea tardia.
Tantra- por Laurie-Wynne-Weber
Tantra- por Laurie-Wynne-Weber
Além disso, os picos de sensibilidade média foram observados no meio do ciclo e durante a segunda metade do ciclo menstrual em mulheres a tomar e não tomar contraceptivos orais (Figura 1). Uma descoberta nos desempenhos de detecção de odor nas mulheres que tomam contraceptivos orais sugeriu a possibilidade de que as flutuações sensoriais normalmente observadas no ciclo são de que as mulheres não podem ser diretamente dependentes dos níveis circulantes de hormônios gonadais ou gonadotrofinas hipofisárias, apesar de serem correlacionados com eles. As flutuações observadas nas variáveis ​​do estudo para as mulheres que não tomam contraceptivos orais são mostradas nas Figuras 2 e 348-49,51. Ainda descobriu-se que essa influencia não é específica para o olfato, mas ocorrem em audição também 47.
Percepção de odor durante a gravidez
Muitas mulheres relatam ter maior sensibilidade ou outras alterações na sua capacidade de percepção de cheiro durante a gravidez, como evidenciado por relatos e inúmeros estudos. Por exemplo, a Nordin et al.53 administrou um questionário extenso sobre cheiro e gosto a 187 gestantes e 80 mulheres não grávidas em momentos diferentes durante a gravidez, pós-parto, ou a equivalentes períodos de tempo, perguntando sobre a auto percepção da sensibilidade olfativa e a experiências de distorção e sensações cheiro fantasmas. Mais de dois terços (67%) das gestantes mulheres relataram ter um aumento na sensibilidade cheiro em algum ponto durante a gravidez. Distorções cheiro qualitativas foram observadas em 17%, e cheiro fantasma em 14%. Tais experiências ocorreram mais frequentemente durante o início da gravidez. Apesar destes relatórios, os dados sobre alterações na função olfativa durante a gravidez não revelam um imagem clara, e não se sabe se as alterações sensoriais mensuráveis ​​acompanham as ânsias e aversões que são comumente vivenciadas 54-58.
Sobre o cheiro fantasma, Grouios73 identificou que mesmo após a perda de entrada de receptores olfativos, a representação neural da percepção olfativa ainda pode recriar sensações olfativas sem qualquer lembrança consciente deles. Isto indica que a representação neural de sensações olfativas permanece funcional e implica que a atividade neuronal no olfato ou em outras estruturas cerebrais dá origem a experiências olfativas percebidas como sendo proveniente de percepção de substâncias de odores originais. O relatório indica a possibilidade intrigante de que a percepção olfativa não é um processo passivo que reflete simplesmente a sua entrada normal do sistema olfativo mas é continuamente gerada por uma representação neural no olfato, ou em outras estruturas cerebrais relacionadas ao olfato, com base em ambos a  genética e determinantes sensoriais.
Tem sido consistentemente relatado que a gravidez afeta avaliações hedônicas, principalmente por diminuir a agradabilidade dos odores. Esse fenômeno parece estímulo dependente. Por exemplo, em um estudo retrospectivo de 500 mulheres que completaram pelo menos um gravidez56, cerca de três quartos das mulheres relatou que havia odores que cheirava menos agradável durante a gravidez (por exemplo, cigarros, café, carne, alimentos em geral, diesel, suor). Menos de um quarto relatou que havia odores que cheiravam mais agradáveis (frutas, flores, bosques, perfumes).
No estudo, Na ET AL Kölble60, as mulheres grávidas classificaram o prazer da maioria dos odores de forma diferente do que os controles, embora três odores (Rum, cigarros e café) fossem relatados como sendo mais aversivos. Recentemente, Cameron et al59 constataram que, em comparação com controles não grávidas, as mulheres no primeiro trimestre da gravidez tendem a taxar a maioria dos 40 odores de um inventário padrozinado (UPSIT- The University of Pennsylvania Smell Inventory Test) como menos agradável. No entanto, a significância estatística foi alcançada por apenas para três odores: laranja, uva e gás natural. Curiosamente, ponche de frutas foi classificado como significativamente mais agradável.
Claramente a literatura sobre olfato e gravidez não é conclusiva. Parece que muitas mudanças que ocorrem durante este tempo são idiossincráticas e específicas para apenas alguns odores. Pesquisas adicionais, empregando grandes quantidades de odores, são necessárias para uma melhor compreensão a natureza das influências da gravidez na função olfativa.
Orgasmo e odor
Tantra-por Christopher Duffy
Tantra-por Christopher Duffy
Novakova72 avaliou noventa mulheres, com idades entre 20 anos e 30 anos, que não usavam pílula e que estavam em relacionamentos amorosos por pelo menos seis meses. Elas preencheram uma bateria de questionários sobre sua vida sexual e cheiraram vários tubos, contendo uma substância em diferentes diluições. Entre os compostos estava um feromônio da família das androstenedionas. Esse esteroide é secretado pelas glândulas sebáceas e na urina e é um dos maiores responsáveis por conferir cheiro ao nosso corpo. As participantes capazes de identificar odores mesmo quando eles estavam mais diluídos  foram exatamente as que relataram ter mais orgasmos com seu parceiro, indicando assim que possivelmente mulheres que têm mais excitação, desejo e satisfação sexual mostram maior sensibilidade aos feromônios.
Influências de administração de esteroides sexuais sobre a função olfativa
Apenas um punhado de estudos examinaram os efeitos da ooforectomia, orquiectomia, ou terapia de reposição hormonal (TRH) sobre a função do olfato humano. A maioria destes estudos sofreu com as pequenas dimensões de amostras51, a falta do duplo-cego, placebo ou procedimentos de controle e teste de confusão com tratamentos hormonais.
Recentemente, Doty ET al. administrou um teste de odor e memória padronizado de 12 itens 61 e avaliou 14 mulheres pós-menopausa que recebem terapia de substituição de estrogénios (TRE) e 48 mulheres pós-menopausa que não receberam essa terapia 62. Apesar de não haver influência do TRE foi observado nos resultados dos testes globais, que as mulheres sob reposição hormonal apresentaram um melhor desempenho na narina esquerda, e mais pobres na narina direita, um fenômeno ausente naquelas que não recebem TRE. Este efeito foi independente da destreza, idade limiar de sensibilidade e de diferenças de volume nasal Esquerdo-Direita ou de área transversal, medidos por rinometria acustica. Estes dados sugerem que a TER pode influenciar diferencialmente os lados esquerdo e direito do cérebro, uma vez que as projeções olfativas são em grande parte ipsilaterais do bulbo às estruturas que compõem o córtex olfativo.
Conclusão
Ainda que a evolução cultural humana tenha permeado as ações dos indivíduos com concepções próprias de cada época a cerca da sexualidade, é inegável o fato de que grande parte – se não a maior – dos fatores que determinam o comportamento sexual é oriunda de percepções inconscientes, resultantes de complexas interações entre as vias sensoriais olfatórias, os circuitos emocionais, os circuitos associados à formação da memória e fatores neuroendócrinos individuais.
Autores:
 Vinicius O. Andrade, Guilherme O. Magalhães, Carlos Eduardo M. Fontes e André Soffiatti-graduandos do curso de Medicina-UFGD-XIIa turma.
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Fonte:http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/?p=841

DEVORE-ME AOS PEDAÇOS - TEXTO DE AÑAÏS NIN SOBRE O SENTIDO PROFUNDO DO SEXO


DEVORE-ME AOS PEDAÇOS (Texto de Añaïs Nin) 


O sexo perde todo o seu poder, toda a sua magia, quando se torna explícito, abusivo, quando se torna mecanicamente obcecante. Passa a ser enfadonho. Nunca conheci pessoa que melhor provasse o erro que é não se lhe juntar a emoção, a fome, o desejo, a luxúria, os caprichos, as manias, os laços pessoais, relações mais profundas, que lhe mudam a cor, o perfume, os ritmos, a intensidade. Nem o senhor sabe o quanto perde com esse seu exame microscópico da atividade sexual e a exclusão dos outros aspectos, que são o combustível que a faz atear. Intelectual, imaginativo, romântico, emocional. Eis o que dá ao sexo as suas surpreendentes texturas, as mudanças sutis, os elementos afrodisíacos. O senhor restringe o seu mundo de sensações. Disseca-o, definha-o, tira-lhe o sangue. Se o senhor alimentasse a sua vida sexual com todas as aventuras e excitações que o amor instila a sensualidade, seria o homem mais poderoso do mundo. A fonte da potência sexual é a curiosidade, é a paixão. O que o senhor vê é sua débil chama a morrer de asfixia. O sexo não pode medrar na monotonia. Sem invenções, humores, sentimentos, não há surpresa na cama. O sexo deve ter à mistura lágrimas, riso, palavras, promessas, cenas, ciúme, todos os condimentos do medo, viagens ao estrangeiro, novas caras, romances, histórias, sonhos, fantasias, música, dança, ópio, vinho. O que o senhor perde com esse periscópio na ponta do sexo, quando podia gozar de um harém de maravilhas várias e jamais repetidas! Não há dois cabelos iguais; mas o senhor não quer que desperdicemos palavras a descrever uns cabelos. Não há dois cheiros iguais; porém, se nós nos detemos com isso, o senhor exclama: "Suprimam a poesia." Não há duas peles de igual textura; nunca é a mesma luz, a mesma temperatura, as mesmas sombras, nunca são os mesmos gestos; porque um amante, quando animado do verdadeiro amor, é capaz de vencer séculos e séculos de ciência amorosa. Quantas mudanças de tempo, quantas variações de maturidade e de inocência, de arte e de perversidade... Discutimos até à exaustão para saber como seria o senhor. Se fechou os sentidos à seda, à luz, à cor, ao cheiro, ao caráter, ao temperamento, deve estar nesta altura totalmente empedernido. Há tantos sentidos menores que se lançam como afluentes no rio do sexo! Só o bater em uníssono do sexo e do coração pode provocar o êxtase. (Añaïs Nin, 1941)

sábado, 13 de dezembro de 2014

MEDICAMENTOS PARA EREÇÃO - ENTREVISTA COM DR.PLINIO GÓES,PROFESSOR DA USP


MEDICAMENTOS PARA EREÇÃO-ENTREVISTA COM DR.PLINIO GÓES



Plínio Góes é médico urologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
O mecanismo da ereção depende de duas vias fundamentais. Uma é o cérebro. Se ele não entrar nesse circuito, a ereção não ocorrerá, pois  parte do cérebro o estímulo psicológico que, através da medula espinhal, atinge os nervos que vão enervar o pênis, uma estrutura anatômica predominantemente vascular, com um corpo cavernoso de cada lado.
Os corpos cavernosos funcionam como esponjas. Quando seus vasos dilatam e no pênis entra mais sangue do que sai, acontece a ereção. Esse mecanismo fisiológico dos corpos cavernosos depende especialmente da liberação de um mediador químico, o óxido nítrico, cuja ação na parede dos vasos provoca vasodilatação e facilita a entrada de sangue. Hoje, existem dois grupos de medicamentos que auxiliam o funcionamento do mecanismo da ereção. Um grupo age nos receptores do sistema nervoso central que manda estímulo para o pênis e o outro age diretamente nos vasos dos corpos cavernosos, especialmente sobre uma enzima que favorece a liberação do óxido nítrico assegurando vasodilatação mais eficaz e, portanto, maior afluxo de sangue e ereção de melhor qualidade.
Esses remédios são bastante seguros e apresentam mínimos efeitos colaterais, razão da imensa popularidade que alcançaram nos poucos anos que estão no mercado farmacêutico.
DROGAS DESCOBERTAS POR ACASO
Drauzio – De repente, surgiram no mercado diversos medicamentos capazes de provocar ereção ou auxiliar o mecanismo da ereção. A que se deve esse fato? Plínio Góes – O homem sempre procurou drogas que aumentassem a libido e a performance sexual. No entanto, foi só nos últimos anos que apareceram diversas drogas capazes de auxiliar o mecanismo da ereção. A primeira foi o sildenafil, descoberta quase que por acaso e que está no mercado há cinco anos.
Ela foi descoberta quando pesquisadores testavam drogas para a vasodilatação coronariana, ou seja, para as artérias do coração, e perceberam que um dos efeitos colaterais que apresentavam era provocar ereções. A partir daí, passaram a pesquisar moléculas semelhantes que pudessem promover melhor ereção para os homens e, hoje, existem no mercado quatro drogas que interferem no mecanismo da ereção. Três têm ação semelhante, o sildenafil, o vardenafil e o taladafil; e uma, a apomorfina, difere um pouco na forma de ação.
Drauzio – Essas três drogas que têm um mecanismo semelhante diferem em que aspectos?
Plínio Góes – O mecanismo de ação é praticamente o mesmo. As moléculas são bastante semelhantes. Variam os tempos da ação (início e duração do efeito) e os efeitos colaterais.
IMPORTÂNCIA DO ESTÍMULO PSICOLÓGICO 
Drauzio – O laboratório que produz o tadalafil anuncia que essa droga garante ereção por 36 horas. Você poderia explicar o que isso quer dizer, pois algumas pessoas acham que a ereção se mantém por todo esse tempo?
Plínio Góes –Não é bem assim. O que acontece é o seguinte: a ação dessa droga dura 36 horas e nesse período o homem manifesta maior facilidade, fica mais propenso para conseguir a ereção. Sem estímulo, porém, o principal elemento para desencadear a ereção, não existirá o efeito da droga.
Se o homem tomar o comprimido de tadalafil e ficar sentadinho num canto, nada acontecerá. É preciso que haja estímulo cerebral para que certas substâncias sejam liberadas e provoquem a ereção.
Drauzio – Com certeza o que trouxe tamanha popularidade para essas drogas foi a necessidade de haver um estímulo psicológico, pré-requisito fundamental para ocorrer a ereção quaisquer que sejam as circunstâncias.
Plínio Góes – De fato, injetar uma droga no pênis ou fazer qualquer outro tipo de manobra na hora do ato sexual pode não trazer a vantagem que um comprimido tomado durante o jantar, por exemplo, oferece e que permite responder ao estímulo, no momento em que ocorrer, com ereção de boa qualidade para uma relação completa.
EFEITOS COLATERAIS E DEPENDÊNCIA PSICOLÓGICA
Drauzio  Quais são os principais efeitos colaterais desses medicamentos? 
Plínio Góes – Assim como promovem a dilatação dos vasos do pênis, esses medicamentos promovem também a dilatação de outros vasos do corpo. Por isso, o rubor facial é um dos efeitos que podem surgir. Dor nas costas semelhante à provocada por medicamentos que liberam certos neurotransmissores, cefaleia e congestão nasal são os outros. Trata-se de efeitos passageiros que ocorrem entre 5% e 15% dos casos e que revertem espontaneamente com o término da ação da droga.
Drauzio – Muitos se preocupam com a dependência psicológica desses medicamentos. Pensam assim: tomo esses remédios e depois não consigo ter mais ereção se deixar de usá-los. Tem procedência essa preocupação?
  Plínio Góes – Tendo em vista a dependência psicológica que qualquer medicamento pode provocar, é preciso pesar muito bem as indicações. Por exemplo, prescrever o medicamento para uso recreativo a um indivíduo que não necessita dele deve ser cuidadosamente ponderado, pois há casos de pacientes que não tinham problema médico nenhum e passaram a ter ereção só quando tomavam o medicamento. Na verdade, o maior inimigo da ereção é a adrenalina. A tensão pode perturbar todo o mecanismo erétil. A pessoa imaginar que sem medicação não terá sucesso, em 50% dos casos, por mero efeito psicológico, isso realmente poderá acontecer.
Drauzio – Temos larga experiência com vasodilatadores em medicina por causa dos vasodilatadores coronarianos. Sabe-se que eles não induzem dependência psicológica nem química. No caso desses medicamentos para ereção, a dependência – se é que existe – seria puramente psicológica?
Plínio Góes – O mecanismo fisiológico da ereção não cria dependência desses medicamentos. Agora, o mecanismo psicológico pode tornar o indivíduo dependente do uso da medicação. Isso quer dizer que a droga em si não causa dependência química, mas, conforme o caso, pode provocar dependência psicológica.
Drauzio – Esses medicamentos criam tolerância? Há a necessidade de aumentar gradativamente as doses?
Plínio Góes – Não criam tolerância. Portanto, não há necessidade de aumentar as doses já que o corpo não se acostuma com a medicação.
DROGAS QUASE PERFEITAS
Drauzio - Imaginar há dez anos que surgiria no mercado uma droga de ação relativamente rápida que provocaria a ereção e que só começaria a agir se houvesse estímulo psicológico, que não produz tolerância nem dependência, que exerce sua ação e depois é excretada naturalmente pelo organismo, todos diriam que isso não passava de um sonho e que nunca apareceria uma droga com tais características, não é? 
Plínio Góes – Esse foi sempre o grande sonho do homem tanto é que essas drogas se transformaram nas drogas do século, talvez do milênio. Antes delas, não havia nenhuma opção por via oral. Havia drogas injetáveis ou outros tipos de medicação que podiam ajudar, mas nada comparável a tomar um comprimido e garantir uma ereção de boa qualidade. No passado, muitos problemas de saúde causavam disfunção erétil e comprometiam a qualidade de vida dos pacientes. Por exemplo, portadores de diabetes, pressão alta ou aterosclerose não tinham ereção que permitisse a penetração. Tomando esses novos medicamentos, conseguem manter uma relação praticamente normal o que representou enorme benefício para eles.
Drauzio – Você nota no consultório essa melhora na qualidade de vida do homem?
Plínio Góes – Com certeza. Os homens estão procurando mais o consultório dos urologistas para a prescrição dessas drogas e acabam fazendo o exame de próstata, muito importante depois dos 45 anos para a prevenção do câncer. Esse foi outro benefício que esses medicamentos trouxeram. Antigamente, os pacientes tinham aversão a procurar um urologista. Depois, interessados no tratamento para a ereção, passaram a prevenir problemas de saúde que possam aparecer com a idade.
EXIGÊNCIA DE PRESCRIÇÃO MÉDICA
Drauzio – Quando se analisa o volume de vendas dessas drogas, chega-se à conclusão que a maioria das pessoas toma esses medicamentos por conta própria, não é?
Plínio Góes – As medicações novas exigem prescrição médica. O sildenafil, como já está no mercado há cinco anos, pode ser comprado sem receita. O ideal, porém, seria que todas as drogas só fossem vendidas mediante a prescrição de um médico.
Drauzio – Será?
Plínio Góes – Eu acho que a primeira indicação deveria ser feita por um médico. Depois, se a droga funcionou a contento, o paciente poderia voltar a comprá-la sem a necessidade de apresentar receita. Não sei como esse mecanismo pode ser posto em prática, mas seria necessário que assim fosse feito para garantir o acompanhamento do paciente e sua reação ao medicamento.
CONTRAINDICAÇÕES IMPORTANTES
Drauzio – Quais são as pessoas que não devem ou não podem tomar esse tipo de medicamento de jeito nenhum? 
Plínio Góes – São as pessoas que usam cronicamente medicações à base de nitratos para problemas coronarianos. Nitratos provocam a dilatação das artérias coronárias e, se utilizados conjuntamente com a medicação inibidora da enzima fosfodiesterase, podem causar hipotensão, isto é, uma baixa muito grande da pressão.
Drauzio – Quer dizer que as pessoas que tomam medicamentos à base de nitratos ou colocam adesivos que contenham nitrato para provocar a vasodilatação das coronárias, não devem tomar os medicamentos para ereção de forma alguma. A contraindicação se estende também para os cardíacos que não tomam nitrato?
Plínio Góes – Cardíacos que não tomam nitratos estão fora dessa contraindicação formal. Existem trabalhos que mostram que essas drogas ajudam a performance cardiológica dos pacientes com insuficiência coronariana em tratamento cardiológico, porque são vasodilatadoras e melhoram a irrigação do coração. Nem mesmo o esforço que fazem durante o ato sexual descompensa seu quadro clínico.
Drauzio – Mesmo para pessoas com problemas cardíacos sérios o esforço que o ato sexual pressupõe não representa um excesso naquele momento?
Plínio Góes – Pode representar um excesso, mas se a pessoa não tem condições de praticar o ato sexual, tomar ou não o medicamento para a ereção não vai agravar o problema cardiológico nem melhorar sua performance, porque o empecilho está na incapacidade de realizar o exercício físico. Ao contrário, se tiver o vigor físico necessário, as drogas não vão alterar em nada sua situação cardiológica.
Drauzio – Pode-se dizer que estamos diante de drogas que têm efeitos colaterais mínimos e não têm contraindicações graves a não ser para aqueles que tomam nitrato para o coração? 
Plínio Góes – São drogas importantes. Mesmo para os pacientes que tomam nitrato, existem outros medicamentos que podem substituí-lo. O cardiologista, no entanto, deve ser consultado se quiserem usar remédios para ereção.
Drauzio – É importante destacar que a pessoa que toma remédio para o coração deve obrigatoriamente consultar seu cardiologista antes de usar medicamentos para ereção, porque pode estar tomando nitrato sem saber.
Plínio Góes – Na verdade, o nome comercial pode não fazer referência à inclusão de nitrato na fórmula do medicamento e só o cardiologista poderá avaliar a possibilidade de a pessoa usar medicamentos que facilitam a ereção.
Drauzio – Quando o sildenafil entrou no mercado, havia a suspeita de que algumas mortes teriam ocorrido sob a ação desse medicamento. Hoje, depois de milhões de pessoas terem tomado essa droga, não existe a descrição de nenhum caso. No geral, essas drogas são realmente seguras?
Plínio Góes – Diversos estudos mostram que são drogas seguras e comprovaram que as referidas mortes tiveram outra causa que não a ação direta da droga. Vários trabalhos americanos e europeus relatam que essas drogas podem ser utilizadas com grande segurança.
Drauzio – Se usado concomitante com essas drogas, o álcool interfere em sua absorção e eficácia?
Plínio Góes – Algumas delas têm a absorção diminuída quando o indivíduo bebe. Outras, os laboratórios atestam que o efeito não se altera com a alimentação e a bebida nem surgem efeitos colaterais. Isso representa uma grande vantagem porque o medicamento pode ser utilizado num jantar concomitantemente com alguma bebida alcoólica sem influência em sua absorção e eficácia.
METAS PARA O FUTURO
Drauzio – Nesse campo, não existia droga nenhuma até alguns anos atrás. Agora, há drogas com 36 horas de ação eficaz. Você acha que surgirá um medicamento que aja por uma semana, um mês, um ano quem sabe?
Plínio Góes – As pesquisas indicam que a tendência é tentar minimizar os efeitos colaterais e aumentar o espectro de ação da droga. O objetivo é diminuir a dosagem e ampliar a duração e a eficácia do medicamento. O que acontece no momento? A ação dessas drogas se manifesta em todo o organismo, o que justifica o empenho em descobrir outras drogas que ajam apenas no pênis e não apresentem efeitos colaterais resultantes de sua ação em outros sistemas orgânicos.
Drauzio – O apelo para o uso dessas drogas é muito grande porque o fantasma da falta de ereção sempre assustou o homem, não é?
Plínio Góes – De fato, diferentemente da mulher, para um desempenho sexual satisfatório o homem depende de alterações importantes em seus órgãos genitais. Sem ereção não há penetração e o intercurso sexual fica comprometido. Esses medicamentos não garantem resultados em 100% dos casos, mas dão a segurança de que vai ser mais fácil obter a ereção. Só isso representa uma conquista que dificilmente deixará de atrair a atenção dos homens.
IMPACTO NO COMPORTAMENTO MASCULINO
Drauzio – Qual o impacto dessa medicação no comportamento masculino?
Plínio Góes – Acho que o homem mudou bastante. Tem menos vergonha de pedir tratamento para seus problemas masculinos. Ele, que sempre procurou ficar longe do médico, está criando o hábito de investigar, de fazer um check-up anual e, nessa hora, aparecem algumas queixas de disfunção erétil – “Não estou conseguindo ter uma ereção de boa qualidade” – e são encaminhados para o urologista. Esse novo comportamento só lhes trouxe benefícios.
Drauzio – Os homens sempre foram muito orgulhosos de sua virilidade e vangloriam-se dela especialmente na presença de outros homens. Daí aparece um remédio que garante ou facilita a ereção e a quantidade de homens que compra esse medicamento é, no mínimo, um fato curioso. Como você justifica a tendência de os mais jovens, que normalmente não têm problemas graves, também se interessarem por esse tipo de medicamentos?
Plínio Góes – O interessante é que mudou a conversa nas rodas masculinas. O papo agora é outro e gira sobre os medicamentos para ereção e sua eficácia. Em relação ao uso recreacional pelo paciente que não tem necessidade, é bom lembrar que essas drogas podem criar dependência psicológica. O indivíduo achar que sua performance foi melhor sob o efeito do remédio, pode estimular o hábito de usá-los e ele só se sentirá seguro para uma relação sexual quando estiver sob seu efeito.
Com certeza, essas drogas ajudam os jovens que vão para a noite e acabam bebendo mais do que deviam. Como se sabe, no começo, o álcool é uma droga que desinibe, mas depois de certa quantidade, prejudica a capacidade de ereção. Nesse momento, tomar um comprimidinho dá a segurança de que, apesar dos drinques a mais, a ereção estará garantida.
Drauzio – Você acha que o impacto desses medicamentos que facilitam a ereção podem ser comparado ao da pílula anticoncepcional para a liberação sexual das mulheres? 
Plínio Góes – Acho que sim. A comparação com a pílula é bastante própria. O homem está mais livre e tem a possibilidade de um comportamento sexual mais ativo depois do advento dessas medicações, porque pode contar com uma ereção na hora que quiser. Isso foi bastante benéfico não só como satisfação pessoal, mas para as pessoas que o cercam. Sem ereção, ele acaba deprimido, com problemas no relacionamento familiar e com os amigos. Não há duvida de que essas drogas abriram novos horizontes para os homens.
DIFERENTES UTILIZAÇÕES DESSES MEDICAMENTOS
Drauzio – Nesse mecanismo de ação das drogas, o que difere uma da outra?O que faz com que uma aja durante algumas horas e outras, por mais tempo?
Plínio Góes – O tipo de ação desses remédios depende de sua composição molecular. Todas praticamente possuem a mesma base com algumas variações que vão reverter numa ação mais prolongada ou menos prolongada.
Drauzio – Você acha que os de ação mais prolongada vão substituir os de ação menos duradoura?
Plínio Góes – Acho que não. O medicamento deve ser indicado de acordo com o que o paciente espera dele. Existem pacientes que desejam uma ação prolongada. Tomam o remédio na sexta-feira e ficam garantidos por todo fim de semana. Outros têm medo de qualquer medicamento com ação prolongada e preferem tomar um que dure um pouco menos, mas tenha uma ação mais rápida e comprovadamente mais efetiva.
Drauzio – Sua experiência mostra que esse tipo de medicamento pode ser indicado até que idade? Homens com mais de 80 anos têm algum tipo de contraindicação?
Plínio Góes – Há homens com mais de 80 anos que não precisam desses medicamentos para ter ereção, mas um complemento extra sempre ajuda. Tenho pacientes com 84, 86 anos que já utilizaram essas drogas sem problema algum e com bons resultados.
Drauzio – Você acha que surgirão drogas que aumentarão a libido feminina?
Plínio Góes – Com certeza. Já existem pesquisas sobre a utilização dessas mesmas drogas pelas mulheres, uma vez que a estrutura do clitóris é semelhante à estrutura peniana. Desse modo, acredita-se que elas tenham efeito também para as mulheres no sentido de aumentar a lubrificação, a rigidez clitoriana e, consequentemente, o desejo sexual feminino.
Drauzio – Alguns usuários, especialmente do sildenafil, se queixam de que demoram mais para atingir o orgasmo. Isso de fato acontece?
Plínio Góes – Isso pode ocorrer. Há pacientes que se referem a esse retardo na obtenção do orgasmo o que, na minha opinião, não representa grande inconveniente. Na verdade, esse efeito pode ser benéfico. Por exemplo, indivíduos com ejaculação precoce podem valer-se dele para uma relação sexual mais adequada e satisfatória.
Drauzio – O interesse envolvido na comercialização desses medicamentos é teoricamente bilionário e provocou uma espécie de guerra entre os laboratórios. Essas drogas têm sido anunciadas na mídia. Você acha que o consumidor pode ser prejudicado por esse tipo de publicidade? 
Plínio Góes – Acho que a publicidade feita de forma adequada e responsável é benéfica porque esclarece o público. O ruim é quando ela induz o indivíduo a utilizar o medicamento sem controle nem indicação precisa.
Drauzio – E a associação de dois medicamentos? O indivíduo toma um que funciona 36 horas e, antes que seu efeito tenha terminado, toma outro de ação mais rápida.
Plínio Góes – Ainda não foi estudado se seria benéfico ou prejudicial esse tipo de associação medicamentosa. Já estão em andamento trabalhos a respeito da interação dos três medicamentos de composição semelhante com a apomorfina, cujo mecanismo de ação é diferente, mas não se chegou a conclusões definitivas. Portanto, no momento, é absolutamente contraindicada a associação desses medicamentos.

Fonte:http://drauziovarella.com.br/sexualidade/medicamentos-para-erecao/