terça-feira, 31 de maio de 2016

VIDA SEXUAL SÓ VOLTA AO NORMAL NO PÓS-PARTO COM MUITA CONVERSA

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Casais que tiveram dificuldade para se reconectarem devem procurar ajuda imagem: Getty Images

Vida sexual só volta ao normal no pós-parto com muita conversa

Thamires Andrade
Do UOL, em São Paulo


Existe vida sexual após ter um bebê? Essa é uma das perguntas mais comuns feitas pelos casais durante conversas com psicólogos no pós-parto. A dificuldade de retomar a vida sexual no puerpério é normal, afinal não há dúvida de que cuidar de um bebê é uma tarefa cansativa e que demanda muita dedicação.
"A maior queixa das mulheres é que o cansaço atrapalha a libido, mas o que acontece de fato é que a chegada do bebê transforma a sexualidade da mulher", afirma a psicóloga Flavia Penido.

"Toda a energia dela está voltada para a amamentação e os cuidados com a criança. Os primeiros meses também são a fase de adaptação, na qual não se dorme direito, pelo padrão de sono do bebê, o que diminui a energia para as relações. Acontece um desencontro do casal, do ritmo, da libido e do desejo. Se eles estavam muito acostumados com a conexão erótica, isso faz com que fiquem muito frustrados", declara o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral.

Os dois especialistas irão debater sobre sexualidade no puerpério no 3° Siaparto (Simpósio Internacional de Assistência ao Parto), que acontece de 1º a 4 de junho em São Paulo.
Do ponto de vista físico, a mulher pode sentir desconfortos durante a relação sexual, mesmo respeitando o período do resguardo, que varia de um mês a 40 dias.
"Muitas vezes, a recuperação não termina no fim do resguardo. Pode levar mais tempo, três meses ou mais. Ainda existe a tradição de se fazer episiotomia --corte feito entre a região do ânus e da vagina durante o parto normal--, apesar de as evidências cientificas deixarem claro que a prática é prejudicial a mulher e a sua sexualidade. Nesse caso, ela pode sentir um imenso desconforto após o corte por um período mais longo", afirma Flavia.
Mesmo que a mulher tenha tido um parto humanizado, sem nenhuma intervenção, a psicóloga ressalta que pode haver alguma laceração para ser cicatrizada. "Geralmente, ela não sente dor física, mas pode se perceber menos lubrificada devido aos hormônios da amamentação. Já quando a mulher passou por uma cesárea, a cicatrização leva mais tempo, pois é uma cirurgia de porte médio a grande. As sensações uterinas podem mudar, ela pode ter dor na cicatriz, e algumas se queixam de maior dificuldade para ter orgasmos", diz Flavia.
As transformações físicas não andam separadas das emocionais. "Muitas questões emocionais aparecem na chegada do bebê. De repente, o olhar de um para o outro muda. Olhar para o parceiro exercendo esse novo papel pode trazer diversas emoções e confusões. Alguns casais ficam realmente abalados emocionalmente por um tempo, é natural", declara Flavia.
Não existe uma fórmula única ou prazo pré-estipulado para que o casal volte a se relacionar como antes. "Depois do filho, a vida nunca será a mesma. Eles agora têm um outro tipo de vínculo afetivo. Essa pressa social [de que a vida sexual volte ao normal] prejudica a percepção de que se trata de um momento único na vida do casal, que pode ser vivido de forma especial, com a descoberta de uma nova forma de se relacionarem em todos os níveis, tanto na sexualidade quanto em todo o resto", afirma Flavia.
Para Amaral, as mulheres inseridas em relacionamentos mais patriarcais e machistas podem se sentir obrigadas a terem relações sexuais, mesmo sem estarem com vontade. "Como se não comparecer, desse um motivo e/ou razão para que o companheiro busque alguém fora do relacionamento. Essa realidade ainda é muito comum, principalmente entre mães mais jovens. É preciso entender que a sensação dos órgãos internos e da imagem corporal no puerpério é diferente. É um processo de adaptação do casal, que pode gerar desconforto emocional e uma desconexão", diz o psicólogo.
A principal queixa dos homens é não sentir espaço para eles na relação. "Ele sente que a vida dela se voltou toda para o bebê e que ele não tem espaço para pertencer. Nem como pai, pois há mulheres que não deixam que eles cumpram os cuidados básicos, nem como marido. O puerpério é um momento que exige muita renegociação do casal, e a vida sexual não volta ao normal sem muita conversa. Após o parto, a mulher se reconhece como outra pessoa, e o marido vai precisar dar espaço para ela manifestar suas transformações e, a partir dai, fazer os ajustes necessários. Se o pai estiver conectado com a paternidade, ele também se sentirá diferente", declara Amaral.
Para o psicólogo, o homem tem papel fundamental para retomar a vida sexual após o parto. "Ele é o que está menos desgastado, pois a mulher viveu todas as transformações no corpo, da cirurgia, de amamentar. A primeira forma de abrir um espaço de diálogo para essa mulher é oferecer ajuda, escutá-la sobre as dificuldades que está vivendo, ser um ponto de apoio para ela. Quando ela se sente genuinamente apoiada, e ele compreende a tormenta que ela está vivendo, o diálogo entre eles ficará mais fácil", afirma Amaral.
Os casais que tiveram mais dificuldade para se reconectarem com a sexualidade devem procurar ajuda profissional. "A sexualidade é importante, e o relacionamento a dois deve ser levado em conta mesmo com o bebê pequeno. É importante priorizar os cuidados com a criança, mas também é legal ter um momento para que os dois possam se desligar de tudo e se conectar um ao outro. Esses momentos podem ajudar a fortalecer o relacionamento e assim cada um estará mais nutrido para se dedicar a suas tarefas pessoais", afirma Flavia.

Fonte:http://estilo.uol.com.br/gravidez-e-filhos/noticias/redacao/2016/05/31/vida-sexual-so-volta-ao-normal-no-pos-parto-com-muita-conversa.htm

POR QUE AS MULHERES COMEÇARAM A CONTRATAR PROFISSIONAIS PARA FAZER MASSAGENS NA VAGINA ?



Por que mulheres começaram a contratar profissionais para fazer massagens na vagina?


27 de maio de 2016


Muitas mulheres estressadas estão recebendo massagens para aliviar a tensão. Por enquanto, tudo normal. Até você perceber que não estamos falando de massagens nas costas ou nos ombros. Não. A maneira mais recente que as mulheres encontraram para lidar com as pressões de uma vida agitada é submeter-se a uma “massagem na vagina”.

Você pagaria um profissional para fazer uma massagem na vagina? [Foto: Rex Features] 
Se você estiver pensando que nos referimos ao tipo de massagem íntima que você poderia conseguir nas típicas “casas de massagem do ramo”, pare por aí. Saiba que não há nada remotamente obscuro sobre esta prática tão particular. Conhecido como ‘massagem Yoni’ este tratamento se concentra em liberar a tensão e estar à vontade com o toque. A massagem inclui toques, respiração profunda e potencialmente (se a cliente consentir) penetração pelos dedos do/da massagista.
Embora as principais razões que levam as mulheres a submeter-se a uma massagem vaginal profissional seja descobrir o que as faz sentir-se bem, aparentemente, tem crescido o número de mulheres que procuram esse tratamento por motivos alternativos como, por exemplo, lidar com um trauma ou uma separação.
Isis Phoenix, uma sexóloga somática especializada em massagem Yoni, falou à Women’s Health sobre a prática e explicou que é possível liberar as emoções que podem estar “presas” em sua vagina ao experimentar sensações diferentes durante a massagem.
“A massagem Yoni é uma cerimônia em que uma mulher é convidada a tocar sua vulva. Quando a estimulamos através do toque, temos a oportunidade de liberar uma sensação de energia… O maior benefício é que as mulheres experimentam um senso de sabedoria intrínseca do que lhes dá prazer”, disse ela.
Alguns especialistas estão totalmente de acordo com os benefícios que a massagem Yoni pode proporcionar à sua vida sexual.
 “Logicamente, qualquer coisa que aumente o fluxo de sangue na região da pélvis aumenta a sensibilidade, a excitação e a lubrificação, o que pode contribuir para os orgasmos”, explicou à Women’s Health, a doutora e professora de obstetrícia e ginecologia da Faculdade de Medicina de Yale, Mary Jane Minkin.

Esqueça a massagem nas costas, a massagem vaginal pode ser a nova forma de aliviar a tensão [Foto: Rex recursos]
Mas Minkin é um pouco mais cética em relação às afirmações de que esse tipo específico de massagem pode contribuir para liberar a tensão. “Dizer que é possível liberar as emoções simplesmente tocando a vagina não parece verdadeiro para mim”, diz ela. Mas se isso ajuda a melhorar sua vida sexual, pode melhorar o seu relacionamento e, por sua vez, proporcionar um pouco de alívio do estresse emocional, explica ela.
Vai querer conferir? Uma sessão pode custar cerca de 1000 reais, e você certamente vai querer agendar essa massagem em um local idôneo.



Fonte:https://br.noticias.yahoo.com/por-que-mulheres-come%C3%A7aram-a-contratar-090843529.html

AMOR DE VOLTA EM TRÊS DIAS ? ARQUEÓLAGOS DESCOBREM MANDINGAS SEXUAIS DO EGITO



Amor de volta em três dias? Arqueólogos descobrem 'mandingas sexuais' do Egito

30 de maio de 2016

Ainda existem muitos mistérios envolvendo papiros egípcios. Isso porque a linguagem utilizada pelos antigos que escreviam as mensagens é bastante difícil de ser decifrada. Mas, aos poucos, a situação começa a mudar.
O pesquisador italiano Franco Maltonini é um dos responsáveis pelas maiores pesquisas envolvendo papiros egípcios. E suas descobertas mais recentes levaram para um inesperado lado sexual da vida no Egito antigo.
Papiros recém-decodificados fascinaram um grupo de arqueólogos liderados por Franco. Neles, é enviado a “incendiar o coração” de uma mulher com feitiços e obter a submissão completa de um homem, também com “poderes mágicos”.
A pesquisa está ocorrendo na Universidade de Udine, na Itália, e mostra basicamente alguns rituais sexuais bastante inusitados. Entre eles, inclusive instruções sobre como praticar sexo em um banheiro público.
“Eu os condor, terra e água, pelo demônio que habita em vocês e a sorte deste banho de modo que, na medida em que ardam e queimem as chamas, que seja incendiada [aqui a pessoa citava o nome da pessoa], nascida de [aqui era citado o nome da mãe da pessoa], até que venha a mim!”, diz uma das mandingas ensinadas.
A vida sexual no Egito antigo é alvo de estudo de muitos pesquisadores. Eles se interessam pelo fato justamente por conta de curiosidades com as descobertas nesses papiros, que fazem do sexo egípcio algo muito diferente do que se vê atualmente.

Fonte:https://br.noticias.yahoo.com/

segunda-feira, 30 de maio de 2016

FAMÍLIA FLEX : OS DRAMAS E ÊXITOS NA CONSTRUÇÃO DE UMA INSTITUIÇÃO SEM GLAMOUR,A TRADICIONAL FAMÍLIA HOMOAFETIVA BRASILEIRA


Família Flex


Os dramas e êxitos na construção de uma instituição sem glamour: a tradicional família homoafetiva brasileira

Alyson sentia ódio e nojo de gays. Estupradores de crianças, pensava. Esse sentimento foi construído durante uma infância difícil. No lugar do amor de mãe, ele recebia surras que ardiam na alma. Apanhou tanto daquela que o deu à luz que foi levado para morar em abrigos. As fugas eram constantes. A esperança era voltar para casa, sonhando com um carinho inexistente. O destino fez com que o tão esperado abraço viesse daquelas pessoas que desprezava. Hoje, aos 15, Alyson fala três línguas, escreveu três livros e estuda para ser coreógrafo. Mais que isso: do casal homossesexual que o adotou há cinco anos, recebeu amor e respeito.
A transformação vivida por Alyson e por várias outras crianças tem sido menos traumática, se possível, desde maio de 2011, quando o STF (Supremo Tribunal Federal) reconheceu a união homoafetiva. Gays passaram a ter os direitos de um casal heterossexual, como pensão alimentícia, herança, plano de saúde e adoção de filhos com sobrenome dos pais. Na prática, todos viraram iguais perante a lei - se for da vontade dos indivíduos, o sonho de planejar a “vidinha”, leia-se namorar, casar e ter filhos, passou a ser plenamente possível pelas regras do Estado. Mas, ainda que a adoção homoafetiva seja uma realidade no Brasil, há sempre a necessidade de acompanhar os humores desse organismo chamado “sociedade”.
Entre ondas liberais e conservadoras que tomam conta da opinião pública, o Poder Judiciário deu sinais nesses últimos anos de ter superado o momento de indeferir pedidos de adoção por puro preconceito. A Justiça tem praticado o melhor pleonasmo possível neste caso: tem se mostrado justa. “Claro que o reconhecimento por uma corte superior tem toda uma mudança de paradigma. Não está havendo indeferimento ou rejeição, ainda que haja casos em que o reconhecimento das uniões pareçam mais morosos para que os juízes assimilem essas possibilidades fora de seus princípios”, analisa a advogada Maria Berenice Dias, presidente da Comissão da Diversidade Sexual da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

Coração Aberto

Essa abertura permitiu a aceitação legal de um novo modelo de família que, junto de toda a nobreza possível no ato de adotar uma criança, une também grupos marginalizados. Os casais homoafetivos, especialmente os homens, são muito mais abertos a aceitarem crianças com perfis habitualmente preteridos - adolescentes, grupos de irmãos, negros, com necessidades especiais, ou seja, crianças reais dos abrigos brasileiros. Enquanto heterossexuais passam mais de quatro anos na fila esperando uma menina-bebezinha-branquinha-saudável, pessoas que convivem com o preconceito provam que não existe padrão perfeito para o amor.
No Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo, 18% das crianças adotadas por famílias homoafetivas têm até 10 anos. Só para ter uma ideia, segundo o Cadastro Nacional de Adoção, apenas 1% das famílias em geral aceita um filho com até essa idade.
Os irmãos Juliana, 13, Maria Vitória, 4, Luiz Fernando, 3, e Anna Claudia, 2, são negros e foram abandonados pela mãe. Três deles nasceram com o vírus HIV. Estavam fadados a atingir a maioridade dentro do abrigo. Mas ganharam uma segunda chance quando fisgaram o coração de Rogério Koscheck e seu marido Weykman Padinho. O brilho nos olhos no primeiro encontro não deixou dúvidas no casal. Estavam diante de seus filhos.
Eu não queria conhecê-los porque eu achava que gays não eram legais. O que me fez mudar foi que eu conheci eles, não eram do jeito que eu tinha pensado. São pessoas normais, legais, gentis, maravilhosos
Alyson Harrad Reis, filho de Toni Reis e David Harrad, sobre o preconceito que tinha antes de conhecer seus pais adotivos
“Já fomos tão expostos a preconceito e discriminações que isso acaba sendo desconsiderado. Na adoção tardia, as crianças já vêm com traumas, mas qual a criança não teve nenhum tipo de trauma? Quem é que tem garantia que seu filho vai nascer com perfeição?”, afirma Koscheck, que também é presidente da Abrafh (Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas). “Lutamos tanto pelo nosso espaço, pelo reconhecimento e, principalmente, pelo respeito, que passamos a desconsiderar certos problemas”, completa.
A adoção jamais tem como fim a caridade, mas nesse tipo de caso acaba tendo essa consequência positiva na sociedade. “Depois que a criança passa dos seis anos de idade, é enorme a possibilidade de ninguém querer e ela ficar no abrigo até os 18 anos. Ela vai sair numa situação muito precária, com uma estrutura psíquica muito frágil. É muito comum ver esses adultos jovens indo para o crime, para a droga. Na medida em que você tem essa flexibilização, você oferece a chance de resgate de uma vida que não teria outra possibilidade”, explica o psicólogo Walter Mattos, coordenador técnico do Gaasp (Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo), que acompanha as famílias nos períodos pré e pós-adoção.

O sonho e o risco

Mas esse é só o início da caminhada. Se o Judiciário ouviu os apelos da minoria, o Legislativo segue a agenda de um forte movimento conservador. O Estatuto da Família, por exemplo, foi aprovado em comissão especial na Câmara dos Deputados. Como houve um pedido de recurso, agora será votado no plenário. Ainda é cedo para saber como funcionaria uma nova lei diante da decisão do Supremo. Mas, para quem já passou por bons e maus bocados, é uma ameaça. Alguns casais em regime de união estável estão correndo para os cartórios para se casarem: ninguém quer perder seus direitos.
A advogada especializada em infância e juventude e presidente da Comissão Nacional de Adoção do Ibdfam (Instituto Brasileiro de Direito de Família), Silvana do Monte Moreira, tem um temor ainda maior. “O meu medo é que a aprovação dessa lei e de outras PLs [projetos de lei] termine jogando as pessoas na ilegalidade. As pessoas cansam de correr pela linha do direito e passam a correr pela linha do mais fácil. Isso é perigoso. Podem começar a pegar crianças sem guarda, sem respaldo. Os conservadores esquecem que a adoção visa ao melhor interesse da criança”, afirma.
Autor do Estatuto da Família, o deputado Anderson Ferreira (PR-PE) discorda. Ele trata a questão como um “modismo” que não pode ter o aval do Estado, ao menos neste momento. “Sou contrário à questão da adoção [por casais homoafetivos]. Não se sabe os danos psicológicos que pode causar às crianças. Querendo ou não a criança sofre bullying na escola, tem festa do Dia dos Pais, do Dia das Mães. A sociedade não está preparada para essa formatação”, disse.
Núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantêm entre si uma relação solidária
Verbete "família", Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa
O movimento no Congresso representa parte significativa da população, que ainda torce o nariz para qualquer conceito de família que não seja baseado no casamento heterossexual. Em 2013, a advogada Dalia Tayguara e a auxiliar de produção Eva Andrade viveram essa angústia e quase ficaram sem sua segunda filha, Thamara, com 12 anos na época.
Os diretores do abrigo no qual conheceram a criança eram religiosos e estavam dispostos a não permitir o processo. Tiravam a menina do abrigo na hora das visitas e tentaram persuadi-la. A juíza Vânia Mara Nascimento Gonçalves, titular da Vara da Infância, da Juventude e do Idoso de Teresópolis-RJ, precisou interferir e regular os encontros. O final foi feliz, mas Thamara demorou quase um ano para ter um lar.
“Não ficaram nada à vontade com duas mulheres adotando a criança deles. Falaram para a nossa filha que ela ia para o inferno, que era uma casa de pecadores, que iam abusar dela de madrugada. Eu tive uma conversa séria com ela. Falei: ‘você está nessa casa para ser filha e irmã’. Fui bem direta para ela ter certeza que veio para ser minha filha, não minha mulher. Tivemos que quebrar algumas barreiras”, conta Dalia.
Até pais biológicos que maltrataram tanto os filhos a ponto de perderem a guarda têm o poder de causar transtorno. Uma mãe adotiva, que preferiu omitir o nome, ainda está no auge do desgaste psicológico por brigar na Justiça pelo filho que já chama de seu. Destituída do poder familiar, a genitora entrou com recurso porque não aceita que a criança seja criada por “dois sapatões”.

Rotina contra o Preconceito

Os irmãos Wesley e Fabioni chegam da escola às 12h25 e dão um beijo no pai, pedindo a benção. Lavam as mãos antes de sentarem à mesa e fazem uma oração para agradecer pelo macarrão e pela carne de panela. Terminado o almoço, os dois pais acompanham a lição de casa e cobram pelo menos uma nota 7. Quem ficar no vermelho não vai tomar refrigerante no fim de semana e não vai na casa do amigo. O horário para voltar, aliás, é 21h. E eles já sabem que 21h não é 21h05.
Wesley e Fabioni vivem sempre assim, todos os dias, todos os meses, todos os anos. Uma vida normal, comum demais. Chega a ser até sem graça. Quando chegaram do abrigo há seis e dois anos, respectivamente, tinham uma imaginação bem mais criativa e até perversa sobre como é viver com um casal gay. Nada diferente de dois homens andando pela casa vestidos de mulher com plumas e paetês rosa choque. Uma espécie de versão brasileira de “A Gaiola das Loucas”.
“No início eu tinha um preconceito por não saber o que era uma família homoafetiva. Eu achava que eram duas pessoas vestidas de mulher, era o que eu via na televisão, em alguns programas de talento. A minha visão era muito machista, distorcida. Mas no primeiro contato visual minha opinião já mudou. Hoje, a minha família representa tudo para mim, sem eles não saberia o que fazer”, conta Wesley.
Se você se mostra como família comum como qualquer outra, com as mesmas questões e as mesmas dificuldades, você conquista esse espaço
Ana Lodi, diretora da Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas
Mas às vezes torna-se uma luta perdida tentar desconstruir um preconceito, mesmo que seja de uma criança. Nem todos os afagos e carinhos são bons o suficiente para criar laços. Um casal de São Paulo viveu a rejeição de uma filha. A menina bateu o pé e não quis ter dois pais. Preferiu viver separada dos dois irmãos e ficar no abrigo à espera de uma mãe. Ninguém sabe se um dia ela vai chegar.
E como medir a dor desse pai em potencial, que está disposto a amar incondicionalmente e leva um ‘não’ por que não cabe no padrão das historinhas infantis? “Ela dizia que queria um papai e uma mamãe. Ela disse muitas vezes que não queria dois pais. Tentamos muito, mas não teve jeito. Doeu muito, foi muito dolorido. Tivemos de falar que não estávamos preparados, colocamos a culpa em nós mesmos para ela não sofrer. Só o amor supera tudo”, disse um dos pais, que pediu para não ser identificado.

Hora daquela conversa

Tem horas que a luta diária da rua contra o preconceito mete o pé na porta e entra em casa. Aí a receita é uma só. Precisa conversar. Muito. Sempre. Promover o “dia da DR” na sala de jantar. Não demora para as crianças entenderem que a família é diferente, mas é igual. Ou é igual, apesar de diferente. Por mais que algumas dúvidas curiosas possam surgir.
‘Pai, eu sei que você é gay. Mas eu gosto de peito, bunda, mulher, não gosto de pessoas peludas. Eu posso ser hétero? Vou ser discriminado aqui em casa?”, perguntou o caçula Felipe arrancando risada dos pais Toni Reis e David Harrad.
Um dia você vai sentir vontade de beijar alguém, filha. O importante é você perceber o que te agrada e seguir seu coração
Fernanda Sabatini, casada com Luciana e mãe de Bruna, respondendo à pergunta da filha "Mamãe, eu vou namorar menino ou menina"?
Os conflitos vão surgir, as inseguranças também. E está tudo certo. Não é mesmo fácil ser o pai-faz-tudo em um mundo feito de mães super-heroínas, intocáveis e irretocáveis. Às vezes a saída é admitir que “mãe é mãe” e recorrer à avó para tirar umas dúvidas. Ou quem sabe passar dias inteiros em frente à TV vendo “Supernanny” para se certificar de que está fazendo tudo certo? Há quem corra para os livros para estudar sobre menstruação. Ou pode vestir a carapuça e tentar assumir um papel mais maternal.
“Eu tenho impulso e atitudes mais de mãe. Eu deixo muito claro para eles: vocês vão ter dois pais. Mas é natural um dos dois puxar um pouco mais. Ele [marido Régis] ajuda, monta lancheira, dá banho, mas em relação à energia todas as minhas amigas que têm filhos falam: você é igual mãe. Eu me vejo em você. Eu falo mais que o Régis, eu que ponho as regras, eu que arrumo cabelo, maquiagem para ir para o balé. Eu compro todas as roupas. Mas eu não sou a mamãe, eles não têm a mamãe nesse contexto familiar”, conta Rafael Romoli, pai de Vitor, 7, e Natalia, 3.

ESCOLA DA VIDA

No fim tudo se ajeita. Mas a sociedade ainda precisa de umas aulinhas sobre como lidar com o novo. É doloroso ver o filho sofrer com piadinhas maldosas dos coleguinhas. Também é chato pegar o bilhete da professora na agenda: “mãe, favor trazer lápis de cor”. E não é nada legal ver a instrução do livro pedagógico: “desenhe o seu pai e a sua mãe”.
Nessas horas, o preconceito não vem escancarado. São os olhares atravessados que mais machucam. O cabeleireiro Vasco Pedro da Gama já se cansou desses pequenos desgastes do cotidiano. No Dia das Mães, ele se desentendeu com a professora da filha Helena, 5, porque ela se negou a escrever um bilhetinho com a mensagem “Feliz dia da Irmãe” para a filha mais velha Theodora, 14. A alegação: a palavra não existe no dicionário.
Filho, não tenha vergonha de falar que somos gays. Você precisa nos assumir. Nós assumimos vocês quando adotamos dois meninos grandes
Admilson Mário de Assunção, casado com Paulo Augusto Jr. e pai de Victor Hugo, 10, e Alejandro, 7, orientando os filhos sobre o que fazer quando ouvirem "seu pai é viado"
Vasco só queria um pouco de sensibilidade. Mas o que ganhou em troca foi uma imitação debochada da professora, que foi pega no flagra na sala da diretoria e teve que se desculpar. “A gente sente um preconceito velado. Na frente é tudo lindo, maravilhoso, mas por trás tem um comentário. Eu mandei uma mensagem no grupo de pais no WhatsApp e fui ignorado. A gente sente que é diferente”, afirma.
Aos poucos, as instituições de ensino tentam se adaptar a essa nova realidade. Em São Paulo, a escola Filhos do Sol e o colégio Rocha Martins trabalham o tema da diversidade com os alunos. Nem sempre os pais dos coleguinhas entendem bem a situação, mesmo com dois alunos de famílias homoafetivas matriculados. “Temos um livro que aborda a diversidade. Uma das mães, que era uma pessoa cristã, perguntou por que estávamos ensinando isso para as crianças. Expliquei que falamos porque existe, assim como existem os planetas. E que estamos ensinando o respeito, o julgamento não cabe a nós. Eu fui dura com ela. Só assim vamos quebrar as barreiras”, afirma a diretora e pedagoga Cibele Rocha Martins.

Colaboraram nesta edição:
7IrisFilmes, filmagem; Mônica G. Arnoni, Juiza de Direito Auxiliar em exercício na Vara Central da Infancia e Juventude de São Paulo; Monica Labuto, Juíza Titular da 3ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso do Rio de Janeiro; Paulo Fadigas, Juiz Titular da Vara da Infância e da Juventude de Penha de França; Regina Beda, diretora executiva do Grupo de Apoio à Adoção de SP; Suzana Sofia Moeller Schettini, presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção
tabuol@uol.com.br



Fonte: http://tab.uol.com.br/familia-homoafetiva#imagem-9





DÁ PARA CONFIAR ? HIPERDOCUMENTAÇÃO DA ERA DIGITAL MUDOU PARA SEMPRE NOSSAS RELAÇÕES DE CONFIANÇA,INCLUSIVE OFFLINE...




Dá para confiar?

A hiperdocumentação da era digital mudou para sempre nossas relações de confiança. Inclusive as offline

Ele disse que não iria à festa, porque tinha o aniversário do sobrinho. Uma checada no Facebook confirmou todos, inclusive ele, em volta do bolo na hora do parabéns. Desfecho diferente teve a história de outra jovem e seu novo namorado. Ele visitaria a família no interior de São Paulo durante o Carnaval, mas foi desmascarado por um check-in em outro destino. A enorme quantidade de registros pessoais tem hoje impacto direto nas relações de confiança: a sua palavra pode – ou não - ser confirmada nas redes sociais e em sites indexados pelo Google. Ficou mais difícil mentir. E também confiar, sem dar ao menos uma olhadinha no que a internet tem a exibir sobre aquele indivíduo.

O excesso de informação nos transforma, cada vez mais, em outro tipo de espécie. Uma espécie que dialoga e costura o conhecimento com outros tipos de inteligência: a humana, a artificial e a da biodiversidade, via internet das coisas”, explica Massimo Di Felice, professor da ECA-USP (Escola de Comunicações e Arte da Universidade de São Paulo) e diretor do centro de pesquisa Atopos, onde coordena estudos sobre redes digitais. “A confiança pressupõe receber bem algo de uma fonte segura e esta forma unilateral de comunicação já não existe mais [pense na crise política e sua repercussão nas redes sociais]. Passamos a checar os dados, juntá-los e associá-los a outras informações, construindo assim um novo tipo de narrativa.”

Isso vale para conhecimento, notícias e, claro, para as relações pessoais. Nessa última aba, há quem limite a exposição e adote recursos de privacidade. Mas controlar dados ficou praticamente impossível numa era de hiperdocumentação, em que uma simples busca no Google pode revelar onde você trabalha, em quais faculdades foi aprovado e até eventuais processos judiciais. Isso sem abrir o baú das redes sociais - um banco de dados com a vida do usuário -, onde geralmente há fotos, vídeos, check-ins, interações, marcações, gostos e opiniões. Não que antes tudo isso fosse secreto. Mas reunir tantos dados na era offline envolvia um processo muito mais trabalhoso e até indiscreto, envolvendo perguntas pessoais e inquisições hoje dispensáveis.

O usuário da rede (isso inclui você) está mais à vontade para compartilhar informações. E há cada vez mais gente (incluindo você, novamente) disposta a juntar esses dados para montar o quebra-cabeça e, na sequência, talvez desconfiar da solução.
Confiança é algo que se constrói e vários fatores podem ajudar nesse processo. Empostação de voz, expressões faciais e postura corporal são avaliadas nas relações cara a cara. Na mescla do online e offline que virou nossas vidas, também se leva em consideração o tipo de conteúdo postado, a forma de escrever, os emojis e as acentuações. Para a psicóloga Camila Campanhã, pesquisadora em neurociência sobre tomada de decisão social e confiança, a disponibilidade dessas novas informações ajuda a conhecer o outro de maneira mais rápida. Para o bem e para o mal - no caso de os dados não baterem.

Numa relação presencial as pessoas tendem a se encontrar com frequência menor. Nas redes sociais, a interação tem outra velocidade, maior: é possível ver e falar com alguém todo dia, a qualquer hora. Assim vão aparecendo mais pistas que indicam se posso acreditar naquela pessoa”, explica. Ou seja: pegamos atalhos para viver histórias mais ágeis. Para a psicóloga, esse novo cenário está de acordo com a teoria de redução de incertezas - desenvolvida em 1975 pelos pesquisadores de comunicação Charles Berger e Richard Calabrese -, segundo a qual as primeiras interações entre estranhos baseiam-se nas buscas de informações. Quanto mais abertura, cordialidade e semelhança encontrarem, mais confiança terão um no outro.

Os próprios serviços colocam essa teoria na prática ao mostrar amigos e interesses em comum. Ou você nunca aceitou um pedido de amizade no Facebook levando em conta aquele bando de gente que você e o até então desconhecido compartilhavam? Tem também os ícones que confirmam a identidade de pessoas conhecidas (um tique azul) e sites que mostram a avaliação de outros usuários. Elementos que, juntos, criam um coro de “confie em mim” enquanto você navega. Em seu processo de evolução, a mesma internet que há alguns anos gerava receio (lembra da sua primeira compra online?) virou hoje uma plataforma de validação.
À medida que fica mais difícil esconder informações, a transparência ganha força – no sentido de exposição, e não necessariamente da “verdade”, considerando que há como editar a persona virtual. Di Felice, da USP, avalia essa abertura como um impacto radical na distinção entre o público e o privado. Antes, a definição baseava-se em limitações físicas. Hoje, na tecnologia: ao participar de uma discussão online deitado em sua cama, o sujeito ocupa um espaço público. “Além disso, há uma busca e um prazer para tornar público o privado. Você quer saber da vida de um cantor, de um escritor. E vai avaliar um político considerando suas posturas pessoais”, exemplifica.

Ele também descarta a separação entre online e offline: um completa o outro. Seguindo esta lógica, o especialista em redes explica que a reputação passa agora pela forma como um indivíduo, uma empresa ou um governo aparece na internet – esse conceito social vem da mescla de informações apresentadas no presencial e no virtual. Não há como ser confiável só na internet ou só no universo físico, como mostram as polêmicas envolvendo blogueiras quando estas enganam suas seguidoras. E as postagens inclusive já orientam a vida de seus protagonistas, tema tratado neste TAB sobre excessos em redes sociais.
Não é porque os dados estão lá, acessíveis e disponíveis, que ficou fácil consumir informações sabendo no que confiar. Na era pré-internet, elas eram mais escassas e vinham “prontas”, sendo pautadas, transmitidas e explicadas por fontes oficiais ou qualquer outra que tivesse seu respeito.
Se confiava na fonte, você imediatamente acreditava no que era dito. Já no mundo em rede, a construção da informação baseia-se em uma enorme quantidade de fontes e opiniões das mais diversas. A “verdade”, seja ela qual for, ficou menos óbvia. Algo parecido acontece no âmbito pessoal, considerando as muitas alternativas para conhecer alguém melhor – mesmo que seja através de uma tela.

O risco aqui é a forma como cada um entende aquilo que vê. “Você pode controlar como se apresenta virtual e presencialmente, mas não dá para controlar como o outro interpreta essas informações”, explica Ana Luiza Mano, psicóloga do NPPI (Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática) da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Na prática, compara, uma simples mensagem de “oi” pode ser recebida com alegria ou raiva: depende do contexto, humor e personalidade do destinatário. Claro que isso também acontecia nas épocas marcadas por cartas e telefonemas, mas não na escala como é hoje. “Na internet, é muito fácil fantasiar. O outro, que poderia sinalizar algo com um sorriso, uma queixa, um olhar torto, não está fisicamente ali. Então é possível pirar, às vezes, em cima de uma ideia.”

Ela mesma passou por isso, quando especularam por que tantos check-ins em um cemitério (de onde Ana Luiza virou prefeita no aplicativo Foursquare). As interpretações poderiam ser muitas, mas o motivo era morar perto do local e não querer revelar seu endereço exato. Só isso. Se a variável das interpretações é humana, segundo ela explica, como confiar naquilo que se vê? Da mesma forma que vem acontecendo até aqui. “A confiança é parte de uma questão humana e passa agora pelas ferramentas atuais que estamos usando. Não dá para acreditar em nada online com uma fé cega, da mesma forma que não deve se fazer no presencial”, avalia.

Mas as ferramentas estão aí e muitos adquiriram o hábito de recorrer à nuvem para saber onde estão pisando. Há quem chame de stalkers (perseguidores), apesar de a prática, cada vez mais comum, manifestar-se em diferentes intensidades. Você pode não vasculhar álbuns de férias no Facebook nem contar (e memorizar) o número de curtidas naquela foto de seu parceiro. Porém, certamente já verificou se aquela mensagem sem resposta no WhatsApp chegou a ser lida. Algo que exige pouco esforço se comparado à era offline, quando checar informações significava conversar com pessoas ligadas ao fato e ir fisicamente a diferentes lugares para confirmá-lo.

A engenheira Gabriela (nome fictício), 41, abusa das redes sociais para confirmar informações sobre os homens com quem se relaciona. Descobriu que um deles tinha outra “ficante” – algo sempre negado – quando o casal foi marcado na foto do passeio em grupo. Também é dela a história da festa de aniversário, no início deste texto. O atual parceiro disse que não poderia vê-la, pois iria à festa do sobrinho. “Baixou a Interpol em mim. Fui procurando, entre os centenas de amigos dele, quem poderia ser o aniversariante. Encontrei, e a data de aniversário batia. Por sorte a página não era bloqueada e vi as fotos do parabéns, que confirmaram tudo.” Ponto para o investigado.

Perfil parecido tem a assistente administrativa Marília Felisdório, 24. Usuária do aplicativo de paquera Tinder, ela sempre puxa a ficha antes de marcar encontros presenciais. 
Vai do Google ao Linkedin, passando por Instagram e Facebook, para saber o que esperar daquela pessoa – numa espécie de spoiler do primeiro encontro. “Esses recursos ajudam a confiar e a desconfiar. Se eles não existissem seria pior, pois ficaria mais difícil confirmar tudo.” Às vezes, não precisa nem procurar. No Carnaval de 2015, o Facebook de Marília exibiu um check-in do então namorado. A marcação feita por uma moça mostrava que o casal estava em Curitiba, sendo que o destino informado era o interior de São Paulo. Na companhia do pai doente. Ops.
Se serve para a vida pessoal, vale também para o ambiente profissional. Tanto que muitos recrutadores aderiram às redes sociais para avaliar candidatos. Coordenadora do curso de analista de recursos humanos da FGV-RJ (Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro), Anna Cherubina define essas plataformas como otimizadoras dos processos de seleção, numa tendência em que não há como voltar atrás. “As duas ferramentas fundamentais são LinkedIn e Facebook. A primeira é para recrutar, porque dá uma visão daquela pessoa sob aspectos profissionais. Já a segunda serve para selecionar. E é onde as pessoas geralmente morrem na praia: não adianta estar tudo redondinho numa rede e deslizar na outra.”

Deslizar, aqui, vai desde a publicação de excessos (um conceito muitas vezes subjetivo) até informações muitas vezes desnecessárias – como a candidata descartada porque manifestou, em sua página, simpatia por seitas macabras. A usuária tem, sim, o direito de postar o que quiser. E a empresa, de escolher o perfil do contratado. O quesito credibilidade, no processo de seleção, também passa pela rede de contatos (no melhor estilo “diga-me com quem andas...”). “As pessoas se atraem por afinidade, e a rede é um indicador de quem é aquele profissional. No Linkedin o importante não é quantidade, mas sim ter pessoas que agreguem”, ensina Anna.

Uma forma de burlar a patrulha é aderir ao Snapchat, uma rede social que disponibiliza a informação apenas por 24 horas. 
Ao contrário de alternativas que “cristalizam” as postagens no ambiente virtual, a ferramenta dá um curto prazo de validade para as informações. Teoricamente, facilita a vida de quem muda de opinião, de parceiro e de posicionamento político.
O crescente sucesso do Snapchat mostra a simpatia pelo efêmero. O caminho para o futuro, no entanto, é cheio de pegadas indicando aquilo que cada um faz, curte e pensa. Com o excesso de dados, o desafio passa a ser encontrar exatamente o que se busca na imensidão do big data. E fazer as perguntas certas antes de colocar todos esses dados para trabalhar.
A série britânica de TV “Black Mirror” retrata a transformação das relações num futuro em que os humanos registram absolutamente tudo com suas lentes de contato. Essa tecnologia do episódio “The Entire History of You” (toda a sua história, em tradução livre) pode não estar muito distante, considerando que Google e Samsung têm projetos de lentes inteligentes – a patente da empresa sul-coreana inclui uma câmera embutida. Quer saber se foi bem na entrevista de trabalho? Reprise-a no telão da sala para os amigos. O marido ou a mulher jura que não flertou? Volte para a cena do jantar e tire a prova. É a ideia de um futuro em que uma imagem pode, mesmo, valer mais do que mil palavras.


Fonte:http://tab.uol.com.br/confianca#da-para-confiar


sábado, 28 de maio de 2016

CASO ANA HICKMANN,O SUICIDA DOS LEÕES NO CHILE E A PATOLOGIA DOS NOVOS TEMPOS - SOMOS TODOS MAL AMADOS


Caso Ana Hickmann, o suicida dos leões no Chile e a patologia dos nossos tempos



Na manhã do sábado, dia 21, um jovem se jogou nu na jaula dos leões em um zoológico no Chile falando frases desconexas de cunho religioso sobre ser filho de Jesus e a chegada do Apocalipse. No mesmo dia, à noite, a apresentadora Ana Hickman sofre atentado de um fã armado com um revólver em um hotel de luxo em Belo Horizonte. Entre frases também desconexas, o fã agradecia a Deus por ter ajudado a encontrá-la naquele hotel, até ser morto por um dos assessores. Quais as coincidências e sincronismos entre esses dois eventos em países diferentes? São apenas fatos isolados protagonizados por “lobos solitários”? Cada sociedade em sua época cria sua própria patologia. O sincronismo desses dois episódios apontam para a patologia da nossa época da sociedade das imagens e do espetáculo: relações fetichistas com pessoas, objetos e símbolos.
Como os leitores mais assíduos devem ter percebido, o Cinegnose se interessa bastante por recorrências, padrões e coincidências que possivelmente possam ocultar sincronismos.

Por isso, no sábado, dia 21 de maio, dois eventos simultâneos em países diferentes chamaram a atenção deste blog. Sendo que o segundo, chegou a disputar espaço na grande mídia com a divulgação do escândalo da gravação de conversas telefônicas do senador Romero Jucá.

No Chile, um jovem chamado Franco Ferrada, supostamente com intenções suicidas, tirou suas roupas e pulou para dentro da jaula dos leões no Zoológico Metropolitano da cidade de Santiago. Falando frases desconexas, todas com motivos religiosos, se agarrou a um leão e passou a ser atacado pelos outros. Os leões foram sacrificados e o “suicida” levado ao hospital em estado grave.

Enquanto isso, em Belo Horizonte, a apresentadora da TV Record Ana Hickman sofria um atentado em um hotel de luxo onde estava hospedada. Rodrigo Augusto de Pádua, 30 anos, rendeu o cunhado da apresentadora e invadiu o quarto dela. Este reagiu e entrou em luta corporal com o homem armado, desarmando-o e matando-o. A assessora de Hickman foi também atingida com dois tiros. Em seus perfis no Instagram e Facebook, Pádua demonstrava obsessão pela apresentadora fazendo dedicatórias de amor e mandando mensagens para ela. Inclusive uma foto do seu pênis.

De um lado um suposto suicida chileno vivendo um delírio místico e messiânico (nas roupas foi encontrada uma carta dizendo ser um profeta, filho de Jesus Cristo e que o apocalipse havia chegado – a alusão ao relato bíblico de Daniel na cova dos leões é imediato); e do outro um stalker de celebridade com uma obsessão amorosa e que em sua cabeça achava estar vivendo um relacionamento com a apresentadora.

Desenhos encontrados com Ferrada: inspiração na narrativa bíblica de Daniel
na Cova dos Leões?

Semelhanças significativas


Além da coincidência dos episódios terem ocorrido no mesmo dia 21, há outras semelhanças significativas entre os bizarros eventos chileno e brasileiro:

(a) ambos os protagonistas estavam sob fascinação por um objeto de fetiche (do português feitiço, apropriado pela palavra francesa fétichisme, adoração ou culto de fetiches), seja religioso ou por uma celebridade;

(b) ambos foram levados pelo impulso de demonstrar publicamente seus sentimentos e obsessões;

(c) Os seus objetos de fascínio ou desejo eram externos a eles – Jesus e Ana Hickman;

(d) os protagonistas expressavam sintomas de desajustamento familiar e sociopatia: Franco Ferrada teve a mãe morta por câncer, dois irmão presos e foi interno do Servicio Nacional de Menores de Chile; Augusto de Pádua era desempregado e aos 30 anos era apegado à mãe e não saia de casa, a não ser para ir à academia de musculação – sua mãe afirmava que ele “lutava 24 horas contra um inimigo terrível”.

O que chama a atenção no sincronismo desses episódios é que não são meros eventos aleatórios ou fait divers – “fatos diversos” ou curiosidades bizarras, como se fala em jornalismo. Mas são verdadeiros sintomas de um tipo de patologia social cotidiana que se vulgarizou a ponto de se tornar um evento aleatório promovido por espécies de “lobos solitários” – atiradores, serial killers etc.
Freud e a neurose: cada sociedade cria sua própria patologia





Da neurose à psicose e fetichismo


Cada sociedade cria suas próprias patologias psíquicas: a era vitoriana de Freud produziu a neurose decorrente da repressão sexual de uma rígida ordem patriarcal; e a atual cultura sociedade das imagens e do espetáculo produz esquizofrenia e transtornos psicóticos na desordem da chamada família nuclear – ausência paterna física ou simbólica e ego vulnerável às pressões do meio social.

Tanto o chileno quanto o brasileiro viviam a compulsão em demonstrar publicamente sentimentos e obsessões, seja tirando a roupa diante de todos em um zoológico para viver uma fantasia religiosa, seja tirando as vestes psíquicas em perfis nas redes sociais  para viver uma fantasia de ter um íntimo e conturbado relacionamento com uma celebridade.

Pesquisadores como Richard Sennett chamam essa marca contemporânea de “ascetismo social” – ao contrário do monge que demonstrava sua fé a Deus na privacidade da sua cela sem pensar na sua aparência diante dos outros, hoje temos a necessidade de demonstrar a Deus ou aos outros os nossos sentimentos para demonstrar que se tem um eu que vale a pena – leia SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público.

Narcisismo em tempos difíceis


Esse “narcisismo de tempos difíceis” seria o drive psíquico das relações de fascínio fetichista por religiões e celebridades – no final tanto um como o outro possuem o mesmo mecanismo da regressão fetichista: adoração de objetos, pessoas ou símbolos tomados como encarnações de poderes mágicos, sobrenaturais ou ligados a entidades espirituais.

Mecanismo de inversão onde o homem, criador do objeto, é dominado por uma espécie de feitiço ou fascínio. Franco Ferrada quer reencenar diante de todos algum drama bíblico e se acha filho de Jesus – a celebridade religiosa com a qual quer ter uma relação pessoal para ter de volta aquilo que ele transferiu para o objeto fetiche – seus sentimentos, desejos e aspirações. 


Seu messianismo e a fantasia de ter uma relação íntima com Jesus esconde a sua impotência social, o fato de ser mais um zé ninguém e um desajustado – outro anônimo dentro de uma crescente estatística: 17,2% de chilenos que sofrem de depressão segundo a Organização Mundial de Saúde.

Enquanto isso, Rodrigo de Pádua vivia a relação de amor e ódio com uma celebridade-fetiche tão bem descritas por sociólogos clássicos como Theodor Adorno ou David Riesman – a celebridade confundida com afeição, e a fama com o amor.

Somos todos mal amados


Se Adorno dizia que no fundo, na sociedade atual, todos nós nos sentimos mal amados ou Riesman afirmava que a multidão produzia a solidão, a celebridade passa a ser o objeto fetiche mais estimado: a celebridade será aquela pessoa supostamente especial porque amada por todos cuja fama atrai carinho e afeição – sobre isso leia ADORNO, Theodor. “Educação Após Auschwitz In: Adorno.São Paulo: Ática e RIESMAN, David. A Multidão Solitária, Perspectiva, 1995.

Por isso, a relação com esse particular objeto-fetiche será marcada pela ambiguidade amor-frustração-ódio. O amor se transformará logo em frustração (afinal, o fã sabe que é apenas mais um anônimo em um multidão de fãs) e, depois, ódio por no fundo saber que jamais terá de volta o amor e afeto transferido para o objeto-fetiche.

Assim como o “suicida” chileno queria ter uma relação pessoal com Jesus, Augusto de Pádua vivia uma fantasia de possessão erótica do corpo da celebridade Ana Hickmann – o desejo desesperado de possuir a carne da celebridade para “devorar” a fama que a faça fugir da sua vida frustrada.


Franco Ferrada queria ser comido pelos leões, enquanto Augusto de Pádua queria “comer” (ou possuir) a “celebridade” – amor e afeto. Relações autofágica e antropofágica. Relações análogas e em sentidos inversos. Duas formas diferentes mas com o mesmo propósito: de alguma forma ter para si o objeto-fetiche, seja Jesus ou Ana Hickmann.

O Verbo se fez carne


Portanto, há uma linha de continuidade entre a civilização das imagens atuais e o mistério da Encarnação de Cristo do catolicismo: “E o Verbo se fez carne”, versículo do Evangelho Segundo João, é a própria essência religiosa na relação fetichista atual com pessoas, marcas e objetos na sociedade de consumo.

O filme canadense Antiviral (2012) é talvez o que melhor trata essa relação extrema dos fãs com as celebridades - em um futuro próximo as relações serão tão obsessivas que todos gostarão de entrar em uma “comunhão biológica” comprando vírus e enfermidades exclusivas dos famosos e comendo carne processada com células dos seus ídolos – sobre o filme clique aqui.

Essa talvez seja a principal patologia decorrente da combinação atual da sociedade de consumo com a cultura da imagem e do espetáculo: tornamo-nos vazios. Os objetos-fetiches parecem roubar de nós as nossas melhores qualidades e achamos que só poderemos tê-las de volta comprando e idolatrando. Ou através do assassinato do próprio ídolo (John Lennon que o diga) ou do suicídio diante dele.

Fonte:http://cinegnose.blogspot.com.br/2016/05/caso-ana-hickmann-o-suicida-dos-leoes.html?

quinta-feira, 26 de maio de 2016

ANÁLISE - TER 'PRESIDENTA' FEZ DIFERENÇA PARA AS MULHERES NO BRASIL

Análise - Ter 'presidenta' fez diferença para as mulheres?


Em 2010, quando Dilma Rousseff assumiu a Presidência como a primeira representante feminina no posto mais importante do país, a expectativa das mulheres era grande.
Esperava-se que a ex-ministra da Casa Civil pudesse ser a voz que elas não tinham em Brasília - já que, no Congresso, a participação feminina beirava os 10%.
Cinco anos e meio depois, Dilma se despediu do Planalto ao menos temporariamente e deixou um legado que, para ativistas e cientistas políticas, "foi bom, mas poderia ter sido melhor".
Especialistas ouvidas pela BBC Brasil citaram principalmente avanços na questão do combate à violência doméstica, da representatividade na política e da independência financeira da mulher.
As maiores críticas ficaram por conta de dois temas polêmicos: os direitos reprodutivos e a questão da diversidade sexual.
Já o recém-iniciado governo do presidente interino, Michel Temer, começou sob protestos pela escolha de um ministério 100% masculino. Ainda assim, o peemedebista manteve a Secretaria da Mulher (que chegou a ter status de Ministério e foi reduzida por Dilma por causa do corte de gastos). A pasta deverá ser comandada pela ex-deputada Fátima Pelaes, do PMDB Mulher, que já foi confirmada no cargo no site do partido.
O nome foi criticado por feministas, já que ela fazia parte da bancada evangélica da Câmara e é presidente da Frente Parlamentar da Família em Apoio à Vida. Ela, que foi defensora da legalização do aborto em seus dois primeiros mandatos como deputada, mudou de posição ao virar evangélica e hoje advoga pela "defesa da vida e da família tradicional".
Apesar disso, a nomeação da ex-consultora da ONU e especialista em Direitos Humanos, Flávia Piovesan, para a Secretaria de Direitos Humanos deixou um fio de esperança entre as defensoras das causas das mulheres.
A BBC Brasil preparou uma lista com algumas das principais reivindicações de grupos que defendem a igualdade de gênero e traz uma análise sobre o quanto esses tópicos avançaram ou retrocederam nos últimos anos, além de falar das expectativas para o próximo governo.

Representatividade da mulher na política

O Brasil ocupa o 121º lugar no ranking de igualdade entre homens e mulheres na política, segundo o ranking elaborado pelo IPU (Inter-Parliamentary Union) em 2013. Atualmente, 10% da Câmara dos Deputados é formada por mulheres e, no Senado, elas são 13%.
Por tudo isso, a participação feminina em secretarias e ministérios, segundo as especialistas, seria essencial para garantir não só a representatividade delas, como também para que as questões de gênero sejam colocadas em pauta.
"A democracia não se completa sem a participação real das mulheres. Mulheres e homens, no exercício da liderança política, devem estar comprometidos com a plataforma de direitos das mulheres dentre as grandes prioridades políticas", afirmou à BBC Brasil Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres Brasil.
No aspecto dos ministérios, Dilma ganhou destaque por ter nomeado o maior número de ministras mulheres na história do país -- foram 18 em cinco anos e meio de governo.
"Ela queria que fosse paridade de ministros, metade mulher e metade homem. Mas por conta de brigas internas do PT não foi. Isso foi uma diferença brutal, porque nunca tivemos um governo que tivesse um número tão grande de mulheres representadas. E isso estimula várias mulheres a participarem da política", disse Maria do Socorro Braga, professora de Sistemas Democráticos e Teoria Política Democrática da Ufscar.
Nesse ponto, a falta de mulheres nos ministérios de Temer teve uma repercussão negativa tanto no Brasil, quanto internacionalmente. "Na situação atual, o Brasil passou a ser um dos pouquíssimos países do mundo sem mulheres no comando de ministérios", pontuou Gasman.
"Não estamos debatendo que precisa ter mulher nesse ou naquele lugar só porque é mulher. Estamos dizendo que o Brasil no século XXI tem mulheres com capacidade para estar em qualquer um dos ministérios. E nós representamos 52% da população, que ali não está representada. Temos muita gente qualificada", avaliou Jacira Melo, do Instituto Patrícia Galvão.
Em uma das medidas para amenizar as críticas, Temer nomeou Flávia Piovesan para a Secretaria de Direitos Humanos. Em entrevista à BBC Brasil, ela admitiu que há necessidade de mais representatividade das mulheres - mas não só na política.
"Tem que avançar e espero que avancemos. Eu creio que temos que avançar em todas as áreas. No Executivo, no Legislativo, onde as mulheres são ainda 10%, no Judiciário. Ainda é muito reduzida nossa representatividade."

Direitos reprodutivos

A questão que causa mais polêmica dentre as reivindicações de grupos de mulheres é a dos direitos reprodutivos - que incluem a luta pela legalização do aborto.
Com a primeira presidente mulher no poder, havia uma expectativa de que essa causa pudesse ser ao menos colocada em pauta na política brasileira. No entanto, não foi isso que aconteceu nos cinco anos e meio do governo Dilma.
"Para mim, uma das grandes tristezas do governo Dilma foi ver que a discussão sobre os direitos reprodutivos das mulheres não avançou em nada, pelo contrário. O tema foi totalmente silenciado", disse à BBC a antropóloga Debora Diniz, do instituto de bioética Anis.
"Mesmo com uma ministra absolutamente engajada (ministra Eleonora Menicucci, na Secretaria de Políticas para Mulheres), nada avançou, porque ela não podia falar nada. E, para falar a verdade, foi um retrocesso se olharmos para o fato de que os serviços que oferecem aborto legal (para os casos previstos em lei) terem sido cortados pela metade nesse governo."
Para Nalu Faria, da coordenação nacional da Marcha das Mulheres, o debate acabou prejudicado por conta da conjuntura conservadora tanto do Congresso, quanto da sociedade brasileira. Ela menciona a estratégia de José Serra, então candidato à Presidência pelo PSDB em 2010, de chamar Dilma de "abortista" na campanha.
"A partir do que foi a campanha, a gente já percebeu que ia ser muito difícil (abordar essa questão). A Dilma foi colocada contra a parede. E depois disso ela não pode ampliar o tema porque havia um conjunto de forças desfavoráveis", afirmou.
"Ela não tinha força suficiente para operar essa correlação de forças. Mas com certeza faltou um posicionamento mais forte dela."
As perspectivas para essa questão não reservam otimismo, na opinião das analistas. A ex-deputada Fátima Pelaes, cotada para a Secretaria da Mulher, era a favor da discriminalização do aborto, mas mudou de posição ao se tornar evangélica.
Em entrevista ao jornal Mensageiro da Paz, Pelaes disse que "como ainda não conhecia Jesus Cristo", defendia a bandeira por entender que "a mulher era 'dona' de seu corpo".
"Coloquei o mandato à disposição de Deus. Hoje, eu defendo o direito à vida, o direito de viver tem que ser dado para todos."
A professora da Ufscar afirma que diante de um cenário 'tão consevador" no Senado e na Câmara não vê um avanço da discussão.
"Na última eleição, os partidos grandes perderam cadeiras para os mais conservadores, de origem cristã. Eles aumentaram muito seu poder dentro do Congresso e por isso a tendência é que esse debate não aconteça", disse a professora da Ufscar.
"Cada vez mais estamos virando uma teocracia. Além disso, temos uma sociedade conservadora, que promove a santificação da maternidade. E com essa sobreposição da questão religiosa e desse fator cultural, a discussão não avança mesmo", observou Débora Diniz.

Igualdade no mercado de trabalho

Entre os avanços registrados no governo Dilma, as entrevistadas citam a maior presença das mulheres no mercado de trabalho formal. Segundo elas, programas sociais como Bolsa Família e políticas públicas de acesso à educação, como o Pronatec, permitiram que mais brasileiras tivessem registro em carteira.
Segundo relatório da ONU Brasil de 2015, as mulheres são maioria entre as beneficiárias de programas sociais. E também estão mais presentes nas empresas e escolas.
"O programa do governo de Dilma em termos de políticas públicas teve um impacto significativo na vida das pessoas mais pobres, especialmente das mulheres negras", diz a representante da ONU Mulheres Brasil, Nadine Gasman.
Os dados da entidade também mostram um aumento de 800% no número de microempreendedoras individuais em seis anos, passando de 21 mil em 2009 para 2,1 milhões em 2014. Desse total, mais de 495 mil pertenciam ao Bolsa Família.
Para a diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão, Jacira Melo, o programa teve uma participação importante na emancipação feminina já que nos mandatos de Dilma mulheres se tornaram titulares do benefício nas famílias. Antes, com Lula, homens também poderiam ser responsáveis pelo cartão.
"[Essa mudança] só acontece quando o governante tem a percepção de que, na família, as mulheres são uma unidade, não só um indíviduo. O parceiro, quando tem a titularidade, pode passar para frente o Bolsa Família, gastar com outras coisas, a mulher não."
Melo teme que isso possa mudar com o novo ministro do Desenvolvimento Social, Osmar Terra. Logo antes de sua posse, Terra disse que o Bolsa Família "não pode ser um objetivo de vida".
"Eu acho que não deve se mexer nisso agora, mas tem de se oportuniza a saída do programa. As pessoas têm que ter renda e não pode ser objetivo de vida viver só de Bolsa Família e o que está acontecendo é isso", afirmou o ministro.
Melo contesta a fala de Terra: "Ele não entendeu nada. Na extrema pobreza em que vive uma parcela considerável da população, isso não é um objetivo, é uma extrema injustiça".
Além da concessão do Bolsa Família, a coordenadora da pós-graduação em Ciência Sociais da UERJ Clara Araújo cita as condições mais flexíveis de empréstimos no Minha Casa Minha Vida e em outros programas de crédito habitacional, o que beneficiaria as mulheres.
"Você sabe que as mulheres, quando são chefes de família sem cônjuge e com filhos, têm uma renda menor. Se não houver um olhar em relação a isso, elas serão sempre excluídas."
No entanto, a professora critica o foco da maioria das políticas nas mães, deixando de lado as necessidades e desejos das mulheres mais jovens ou solteiras.
"Há sempre uma tensão entre afirmar as mulheres como sujeitas de si, como pessoas de direito só por serem mulheres, e o discurso da maternidade, de vê-las sobretudo como mães."
Segundo as entrevistadas, outra medida favorável à emancipação feminina no governo Dilma foi a aprovação da "PEC das Domésticas", emenda constitucional que amplia os direitos das empregadas domésticas. O texto que regulamenta a PEC foi publicado no Diário Oficial em junho de 2015 e garante sete novos direitos a essas profissionais, como auxílio-creche, seguro-desemprego e salário-família.
A lei que permite as empresas ampliarem a licença-paternidade de 5 para 20 dias também é mencionada como tópico positivo. Em março, Dilma sancionou o texto, que cria a Política Nacional Integrada para a Primeira Infância e permitiria que pais dividissem os cuidados com as crianças por mais tempo.

Combate à violência e ao feminicídio

Colocar todas as ações previstas na Lei Maria da Penha em prática foi para Jacira Melo, do Instituto Patrícia Galvão, um dos principais destaques do governo Dilma no combate à violência doméstica - tópico muito bem avaliado pelas especialistas consultadas.
"A sensibilidade [do governo] possibilitou ações significativas para acesso à Justiça e O acolhimento das mulheres nos espaços urbanos e rurais. Isso foi absolutamente novo", diz Melo.
Ela cita também a Lei do Feminicídio, que tipifica o crime de feminicídio (assassinatos cuja motivação envolve o fato de a vítima ser mulher) e aumenta as penas previstas pelo Código Penal para esse delito. O texto foi sancionado no Brasil em março de 2015.
A inauguração de centros de acolhimento de vítimas de violência, as Casas da Mulher Brasileira, está incluída nessas medidas, segundo Nalu Faria, da Marcha das Mulheres. No entanto, pondera, a presença dos centros não foi tão extensiva quanto prometido - até agora duas unidades foram abertas.
"O programa previa uma casa por capital, o que não foi feito, mas ao menos cria uma referência interessante para ser implementada."
Em entrevista à BBC Brasil, a nova titular da Secretaria de Direitos Humanos - que na gestão Michel Temer foi incorporada ao Ministério da Justiça -, Flavia Piovesan, afirmou que a violência contra a mulher é uma das prioridades do governo, junto às ações afirmativas para negros.
"[A prioridade] é como combater, prevenir e implementar de maneira mais plena a Lei Maria da Penha em todo o país."

Questão de gênero e diversidade sexual nas escolas

Uma das grandes polêmicas durante o governo Dilma foi a da cartilha formulada pelo Ministério da Educação para abordar a questão de gênero e a diversidade sexual nas escolas públicas. Essa também era uma das pautas dos ativistas pela igualdade de gênero e acabou não indo para frente.
Logo que a notícia da cartilha, chamada "kit anti-homofobia", surgiu em 2011, uma enxurrada de críticas vieram, além de uma pressão da bancada evangélica e católica do Congresso, e tudo isso fez com que Dilma recuasse.
O kit era parte do projeto "Escola sem Homofobia" e tinha como objetivo abrir um debate nas escolas sobre temas como gênero e suas desigualdades, homofobia, diversidade sexual e luta pela cidadania LGBT.
"Não se trata de recuo. Se trata de um processo de consulta que o governo passará a fazer, como faz em outros temas também, porque isso é parte vigente da democracia", disse Dilma à época. O tema não voltou mais à tona desde então.
Para Maria do Socorro Braga, assim como a discussão o aborto, essa também não vai evoluir por causa do Congresso "conservador".
"Essas questões não vão ser colocadas em pauta em um Congresso tão conservador. Além disso, hoje temos uma grande parte da população que rejeita a pauta mais progressista", analisou.
Já Flávia Piovesan, dona da pasta dos Direitos Humanos no governo Temer, considera esse tema como uma de suas prioridades.
"Acho muito importante termos o diagnóstico: onde estamos e para onde vamos. E uma das minhas prioridades é trabalhar a questão da homofobia. Não podemos admitir desperdício de vidas em razão da intolerância pela diversidade sexual."
Fonte:http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2016/05/26/analise---ter-presidenta-fez-diferenca-para-as-mulheres.htm