quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O AMOR EM TEMPOS DE FACEBOOK

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O AMOR EM TEMPOS DE FACEBOOK

Você olha para o lado e no muro mais uma frase romântica pichada. Sorri feliz e até tira uma foto, o amor está lá, pintado no muro e emocionando quem passar por ali e ler. O amor está escrito no papel da bala, com frases curtas e incríveis e parece o suficiente. No adesivo do carro com corações vermelhos. E agora, ele também está lá, publicado no seu mural todos os dias. O amor está sendo divulgado em frases mal elaboradas à espera de mais uma opção curtir, de mais um seguidor. Em tempos onde todos viraram poetas e discípulos do romantismo, o amor se perdeu de vez num emaranhado de palavras que, juntas dizem menos do que separadas. E ‘eu te amo’ é frase que se compra e se vende mais barato do que pastel de feira. Antes o amor era cafona, agora o amor é plágio. Vem cá, onde foi parar o amor mesmo? Do luxo ao lixo. Saiu dos corações, dos beijos molhados, das surpresas e das mãos dadas para virar politicagem barata em redes sociais. O amor está em promoção! Curta um e leve dois. A nova aliança é ‘me segue que eu te sigo’ de volta. O romance escorre nas palavras enquanto o computador está ligado, depois são lágrimas que escorrem no travesseiro sem ninguém perceber. E no dia seguinte, uma frase de Vinícius de Moraes publicada só para dizer ao mundo que você ama e é feliz. Quando na realidade não sente um beijo de verdade faz um bom tempo. Tão acostumados a escrever, nós deixamos de dizer. E quanto menos se diz sobre o amor, menos se sabe sobre ele, menos se vive e muito menos se sente ou faz com que o outro sinta. Amar não é só escrever que ama. E se quiser digitar uma poesia, faça isso com seus dedos em minhas costas, por favor! Pior do que se ajoelhar virtualmente e declarar o amor para milhares de amigos que você sequer cruzou nos corredores do colegial ler, é aceitar aquelas declarações emolduradas por uma tela de computador, com palavras previamente ensaiadas, com pedaços de músicas se encaixando perfeitamente, vírgulas nos lugares exatos, reticências poéticas e uma concordância escandalosamente perfeita num exagero beirando o precipício. O amor escrito minuciosamente. Ali, perfeito e entregue de bandeja. E você aceita essa bandeja sem questionar e sem lamentar que não pode segurar ela com as mãos. Pior é acreditar em parágrafos que circulam em Ctrl C + Ctrl V e se sentir especial. Se o amor fosse uma pessoa, com toda certeza iria encher a nossa cara de porradas e cobrar ‘que porra é essa que vocês estão fazendo comigo?’. O amor virando palhaço de circo e a gente aplaudindo. O amor na vitrine e a gente se contentando em só olhar. O amor que antes era uma linda e natural flor, com cheiro e textura, agora virando flor animada em GIF, coberta de glitter. Me diz, cadê o toque? Onde estão os ‘eu te amo’ sussurrados ao pé do ouvido? As declarações mal feitas, acompanhadas de olhares apaixonados com medo de falhar? Onde estão os arrepios e o perfume? Estão todos engavetados e esquecidos e a culpa é toda nossa, simplesmente porque nós não cobramos o amor na carne. Não exigimos o amor ao vivo, no último volume. Temos medo de encarar o real tamanho do sentimento, e então usamos escudos disfarçados de telas frias e filtros do Instagram. Se for por culpa da distância, tudo bem e a gente aceita declarações que ajudem a manter a lembrança de que o outro existe e ama. Mas faça isso com competência. Muitos querem uma grande estória de amor, mas poucos são competentes para isso. Se for virtual, prefira então as promessas. E principalmente, aquelas que se cumpram depois lá fora, no mundo real, onde a gente se olha nos olhos enquanto faz amor. Onde compartilhamos a saliva e o suor – e não apenas frases. O amor não pode ser descartável. O amor não pode ser assim, fácil de deletar. Bastando um backspace e o amor acaba. Bastando um ‘desfazer amizade’ e o amor some. Bastando uma tinta no muro e o romantismo sendo abduzido sem que ninguém note. Não! Queira do amor tudo o que ele pode oferecer. A voz, a pele, o gosto, o olhar e a dor. Viva e morra por amores profundos e reais. Sofrer por publicações é humilhante. Morrer de amor apenas por frases é decadente. Faça-me versos sim, me cante com poesias de Leminski e Drummond de Andrade. Eu não quero que as palavras morram. Mas, ao final delas, não me mande ‘beijos’ virtuais, desligue isso aí e venha até aqui me beijar.
 Por: Camila Heloíze
Fonte: Benfazeja Revista Literária

O MACHISMO TAMBÉM MORA NOS DETALHES

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O machismo também mora nos detalhes

Quando você pensa em machismo, o que vem à sua cabeça? Estupro, violência doméstica, restrição econômica, submissão e subserviência. Porém, existem alguns comportamentos machistas que permeiam nosso cotidiano e sequer nos damos conta. Gestos que parecem inofensivos, mas na verdade roubam nossa força, nosso espaço e limitam as possibilidades das mulheres. Mas estamos de olho! A Think Olga traz uma explicação sobre quatro tipos de machismo invisíveis para te ajudar a combatê-los no seu dia-a-dia: manterruptingbropriating, mansplaining gaslighting. São comportamentos batizados em inglês sem tradução oficial. Mas também achamos imprescindível pensarmos em versões em português!

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A palavra é uma junção de man (homem) e interrupting (e interrupção) Em tradução livre, manterrupting significa “homens que interrompem”. Este é um comportamento muito comum em reuniões e palestras mistas, quando uma mulher não consegue concluir sua frase porque é constantemente interrompida pelos homens ao redor.
Em março, um caso típico ganhou a internet: em um painel do SXSW 2015, evento de inovação, música e cinema que acontece todos os anos em Austin, Texas, uma mulher brilhante discutia a baixa presença feminina na tecnologia ao lado de dois homens, igualmente inteligentes. Eram eles o chairman do Google, Eric Schmidt, o jornalista e biógrafo do Steve Jobs, Walter Isaacson, e a Chefe de Tecnologia do governo americano (Pentágono), Megan Smith. E, apesar de o papo ser sobre ampliar as possibilidades para as mulheres, os homens da mesa não estavam dispostos a ceder espaço a ela. Cada vez que Megan Smith tentava fazer uma colocação, era interrompida de forma desnecessária por um dos dois homens:
  • “Sim, Senhora Smith, sei que você pode falar sobre isso melhor que ninguém, mas é que…”
  • “Acho que esta pergunta (da plateia) tem bastante a ver com a área da Senhira Smith, mas eu só queria falar que…”
  • (falando por cima dela) “Sim, Senhora Smith, mas o que vale a pena ser dito é que…”
Esta postura clássica de manterrupting foi tão impactante que uma pessoa na plateia perguntou porque eles não deixavam Megan falar. O público, que estava incomodado, aplaudiu de pé. Outro episódio famoso é o de Kanye West, que interrompeu Taylor Swift durante seu discurso de agradecimento pelo prêmio de melhor videoclipe feminino do MTV Music Awards, em 2009. Ele invadiu a cena para defender Beyoncé, que concorria com ela na categoria. A interrupção começou com o “Hey Taylor, I’m really happy for you and Imma let ou finish” e acabou quebrando a internet, com uma enxurrada de memes. Mas, disfarçado de piada, ali está o machismo. Não apenas por não dar espaço para que Taylor falasse, mas também por ele se expressar em nome de outra mulher, no caso, a poderosa Beyoncé. Desnecessário e agressivo. Com licença, Kanye, mas nós não vamos mais deixar você terminar…
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O termo é uma junção de bro (curto para brother, irmão, mano) e appropriating (apropriação) e se refere a quando um homem se apropria da ideia de uma mulher e leva o crédito por ela em reuniões. Quando colocamos uma ideia, muitas vezes não somos ouvidas. E então, um homem assume a palavra, repete exatamente o que você disse e é aplaudido por isso. Quem já não se viu nesta situação?
Em seu livro “Faça Acontecer”, Sheryl Sandberg, Diretora de Operações do Facebook, convida as mulheres a sentarem à mesa. A serem conscientes de seus lugares e de sua importância na sala de reuniões. Ela explica que somos criadas como delicadas, suaves e gentis, jamais como enfáticas ou assertivas. E quando nos impomos somos vistas como masculinizadas. Não há dúvidas de que isso atrapalha nossa vida profissional.
E este comportamento não é privilégio de algumas áreas. Em todos os mercados funciona assim. Em qualquer sala de reunião. O bropriating ajuda a explicar porque existem tão poucas mulheres nas lideranças das empresas. Além das supostas desvantagens mercadológicas e o preconceito de gênero, ainda servimos de plataforma para o crescimento de colegas homens, pelo simples fato de sermos menos ouvidas e levadas a sério. Garotas do mundo todo, sejamos as donas das nossas ideias!

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O termo é uma junção de man (homem) e explaining (explicar). É quando um homem dedica seu tempo para explicar a uma mulher como o mundo é redondo, o céu é azul, e 2+2=4. E fala didaticamente como se ela não fosse capaz de compreender, afinal é mulher. Mas o mansplaining também pode servir para um cara explicar como você está errada a respeito de algo sobre o qual você de fato está certa, ou apresentar ‘fatos’ variados e incorretos sobre algo que você conhece muito melhor que ele, só para demonstrar conhecimento. Acontece muito em conversa sobre feminismo!
Um caso bem ilustrativo foi de um comentarista da CNN, ao falar sobre o caso Hollaback!, em Nova York, e mansplaining assédio sexual em locais públicos para a âncora e para a outra entrevistada:
Algumas pérolas selecionadas (com comentários):
  • “Não há nada que uma mulher goste mais do que ouvir o quanto ela é bonita.” (puxa, obrigada por essa informação #sqn)
  • “Se ela não gosta de cantadas, ela que não saia na rua.” (ótima ideia! Não, péra.)
  • “E por que as mulheres simplesmente não respondem pros caras, já que elas não gostam? (Oi, tem mulher que morre por causa disso, amigo. #exausta)
A verdadeira intenção do mansplaining é desmerecer o conhecimento de uma mulher. É tirar dela a confiança, autoridade e o respeito sobre o que ela está falando. É tratá-la como inferior e menos capaz intelectualmente. Talvez você não tenha percebido isso de forma tão explícita no seu cotidiano, mas com certeza agora irá prestar atenção na maneira como seu chefe ou seu marido falam com você, com os elogios desnecessários ou idiotas que você recebe, nas mensagens bobas de parabéns pelo dia das mulheres. Tá tudo lotado de mansplaining.

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Gaslighting é a violência emocional por meio de manipulação psicológica, que leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz. É uma forma de fazer a mulher duvidar de seu senso de realidade, de suas próprias memórias, percepção, raciocínio e sanidade. Este comportamento afeta homens e mulheres, porém somos vítimas culturalmente mais fáceis. No dia a dia, aposto que vocês já ouviram alguma vez – ou várias:
  • “Você está exagerando”
  • “Nossa, você é sensível demais”
  • “Para de surtar”
  • “Você está delirando”
  • “Cadê seu senso de humor?”
  • “Não aceita nem uma brincadeira?”
  • E o mais clássico: “você está louca”.
O termo gaslighting surgiu por causa de um filme de mesmo nome, de 1944, em que um homem descobre que pode tomar a fortuna de sua mulher se ela for internada como doente mental. Por isso, ele começa a desenvolver uma série de artimanhas – como piscar a luz de casa, por exemplo – para que ela acredite que enlouqueceu.
Um caso recente, ocorrido dentro da marinha americana, foi noticiado pela imprensa: cinco mulheres afirmaram ter sido vítimas de estupro dentro da corporação. Poucos meses depois, todas foram afastadas por problemas emocionais. Outras mulheres relatam casos dentro da instituição. Após denunciar as agressões, ouviram de volta:
  • “Não venha me aborrecer só porque fez sexo e se arrependeu.”
  • “Isso nunca aconteceu. Agora pode ir embora.”
Isso é gaslighting. Uma forma de manipulação que desencadeia um total esvaziamento da autonomia da vítima. Uma ferramenta presente em muitos relacionamentos, que levam as mulheres a abrir mão de suas escolhas, de suas opiniões e até de cuidar da sua própria vida. É desempoderamento, opressão e controle. Algo que não deve ser admitido em nenhuma situação.
Manterruptingbropriatingmansplaining e gaslighting. Saber que estes problemas existem já é parte importante da solução. Estar atenta aos pequenos gestos cotidianos e transformá-los pouco a pouco farão a sua vida, e de muitas mulheres, melhor.

Pequeno dicionário:
#manterrupting: quando uma mulher não consegue concluir sua frase porque é constantemente interrompida pelos homens ao redor.
#bropriating: Quando, em uma reunião, um homem se apropria da ideia de uma mulher e leva o crédito por ela.
#mansplaining:  É quando um homem dedica seu tempo para explicar algo óbvio a você, como se não fosse capaz de compreender, afinal você é uma mulher.
#gaslighting: violência emocional por meio de manipulação psicológica, que leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz.


Maíra Liguori é jornalista, publicitária e co-fundadora do Think Eva
Arte: Aline Jorge
Fonte:http://thinkolga.com/2015/04/09/o-machismo-tambem-mora-nos-detalhes/

sábado, 14 de janeiro de 2017

CENAS DE SEXO NO CINEMA AINDA SÃO TABU ?

Direito de imagemSUNDANCE SELECTS


Cenas de sexo no cinema ainda são tabu?

Os oito minutos mais comentados do cinema no ano passado fizeram parte do filme francês Azul É a Cor Mais Quente. A cena de sexo entre duas garotas era tão explícita e longa que o drama dirigido por Abdellatif Kechiche, sobre a passagem para a vida adulta, poderia ter sido desprezado como sendo pornografia.
No entanto, mesmo em meio a um grande debate sobre a moralidade de um cineasta de 52 anos orientando duas jovens atrizes nuas a se contorcerem, o filme ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes e foi um sucesso de crítica. A maioria dos especialistas viu no filme um retrato duro e honesto do primeiro amor.
Não foi um caso isolado. Quando passamos os olhos pela lista de filmes de 2013, poderíamos pensar que os diretores de hoje só querem saber de sexo.
Gwyneth Paltrow e Mark Ruffalo, dando um tempo na função de salvar o planeta em Os Vingadores, estrelaram Terapia do Sexo, um drama sobre um grupo de apoio a viciados em sexo.
Lovelace contou com Amanda Seyfried no papel da estrela de Garganta Profunda, sucesso que escandalizou o mundo nos anos 70.
E Joseph Gordon-Levitt, recentemente visto em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, escolheu um estilo bem diferente ao estrear como roteirista e diretor. Em Como Não Perder Essa Mulher, ele é um barman que assiste a pornografia em seu computador várias vezes por dia, apesar de ter Scarlett Johansson como sua namorada.
A tendência continuou em 2014. O público teve à disposição pelo menos dois filmes americanos que contam a história de insuspeitos trabalhadores do sexo.
Concussion (ainda sem título em português), de Stacie Passon, é um drama sobre uma mãe de meia-idade que se torna prostituta; e Amante a Domicílio é uma comédia escrita e dirigida por John Turturro, que também estrela a fita como um florista que vira amante profissional.
Mas o filme que mais gerou polêmica foi Ninfomaníaca, de Lars von Triers, uma excêntrica experiência de quatro horas de aventuras carnais.

Sexo e Hollywood

Talvez não devêssemos nos surpreender muito com o fato de tantos novos filmes se passarem na cama (ou, no caso de Ninfomaníaca, em qualquer lugar menos na cama).
Henry Fitzherbert, crítico de cinema do jornal britânico The Sunday Express, acredita que essa porta foi aberta pela "banalização da pornografia". Para ele, a internet está tão saturada de sites pornográficos, videoclipes sugestivos e selfies ousadas que as cenas de sexo já não são mais tabu no cinema.
Ironicamente, no entanto, a onipresença online desse tipo de imagens significa também que as pessoas tendem cada vez menos a pagar para vê-las no cinema.
Jonathan Romney, outro crítico, concorda. "Pesquisas recentes indicam que o conteúdo sexual até prejudica a bilheteria de um filme", afirma. "O público dos blockbusters não está interessado em ver cenas de sexo, pelo menos não na telona."
O que os filmes mencionados acima têm em comum – além das chamadas "cenas de natureza sexual" – é que todos aspiram a serem reflexões e estudos maduros sobre personagens. Estamos assistindo não a uma nova onda de filmes sobre sexo, mas a uma nova onda de filmes que tratam o sexo como parte da vida.
Já em termos de cenas de sexo mais convencionais – filmadas em ângulos mais favoráveis e com atores de corpos perfeitos –, o melhor não está nos cinemas, mas sim na TV a cabo. Os espectadores ficam menos constrangidos na privacidade de suas casas. E, longe das restrições impostas pelos anunciantes da TV aberta, séries como True BloodRome e Game of Thrones estão fazendo a telinha ferver como nunca.
Ainda é difícil dizer se Hollywood um dia será tão ousada quanto a televisão. "Creio que os grandes estúdios vão continuar evitando a sexualidade nua e crua", afirma David Gritten, repórter de cinema do The Daily Telegraph, da Grã-Bretanha.
"Eles ficam mais à vontade com histórias dedicadas a famílias, que trazem mais lucros porque vendem mais. Às vezes, vemos sexo nos filmes hollywoodianos, mas geralmente porque os diretores têm uma reputação incontestável, como Martin Scorcese, com O Lobo de Wall Street."
A única coisa que pode fazer diferença, claro, é o dinheiro. Sam Taylor-Johnson está atualmente filmando uma adaptação de 50 Tons de Cinza, o romance erótico campeão de vendas escrito por E.L. James. Se o filme tiver a metade do sucesso do livro, deverá surgir uma onda de imitações.
Mas quem estiver torcendo por um remake hollywoodiano de Azul É a Cor Mais Quente terá que esperar sentado.
Fonte:http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141217_vert_cul_sexo_cinema.shtml

AS CENAS DE SEXO QUE 'NINGUÉM QUER VER'

Direito de imagemMUSIC BOX FILMS
Image captionO filme alemão 'Cloud 9', de 2008, mostra a relação apaixonada e cheia de sexo entre um casal idoso


As cenas de sexo que ‘ninguém quer ver’

Um casal prestes a comemorar um importante aniversário de casamento entra em crise quando o marido recebe notícias inesperadas sobre uma antiga namorada. Tentando esquecer o assunto, os dois bebem vinho e conversam. Quando vão para o quarto, acabam transando.
A sequência se passa no filme 45 Years (ainda sem título em português), do diretor britânico Andrew Haigh, cujos protagonistas receberam o Urso de Prata de melhor atuação no Festival de Berlim deste ano e que estreia na Grã-Bretanha nesta sexta-feira.
O que chama a atenção nessa cena de sexo é o fato de o casal, formado pelos atores Charlotte Rampling e Tom Courtenay, estar entrando em seus 70 anos.
"Essa cena é absolutamente crucial para o filme", define o diretor Haigh. "Mas é engraçado o silêncio estranho que eu noto nas exibições, porque o público pensa que quando a personagem de Charlotte fecha a porta do quarto, está tudo encerrado. Mas não, nós continuamos a filmá-los."

Motivo de piada

Direito de imagemTHE BUREAU
Image captionEm '45 Years', Tom Courtenay e Charlotte Rampling vivem casal às vésperas de importante boda
A cena é também o que faz de 45 Years uma anomalia. Porque quando se trata dos hábitos sexuais de idosos, os cineastas tendem a deixar a porta fechada.
Até alguns anos atrás, filmes mainstream que mostrassem qualquer tipo de relacionamento entre idosos eram uma raridade. Até que Michael Haneke fez Amor, em 2012, e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro e a Palma de Ouro em Cannes. Na mesma época, surgiram outras produções em torno do tema e que agradaram multidões, como O Exótico Hotel Marigold e O Quarteto.
Mas, enquanto é possível que septuagenários se apaixonem, as câmeras nunca se intrometem em qualquer consumação – transmitindo a mensagem de que o ato sexual entre eles simplesmente não é possível.
"45 Years é um filme maravilhoso, que mostra esse casal mais velho como indivíduos interessantes, antenados com o mundo, tendo uma vida social intensa. Então, é natural que eles também sejam ativos sexualmente", afirma Wendy Mitchell, editora do jornal Screen International, voltado a profissionais da indústria cinematográfica.
"É importante que a cena de sexo entre eles seja realista, e não glamourosa ou forçada. Mas também é crucial que a cena não seja motivo para risadas, porque idosos não transam para fazer graça."
No entanto, é com comédias que Hollywood tenta lidar com amantes de idade mais avançada. No filme Alguém Tem Que Ceder, de 2003, os protagonistas, vividos por Diane Keaton e Jack Nicholson, têm uma cena de sexo. Mas há uma piada no fato de o personagem dele – um homem geralmente interessado em garotas mais novas – ter que usar Viagra.
Outra comédia, Simplesmente Complicado, de 2009, deixa a ativa vida sexual do casal Meryl Streep e Alec Baldwin praticamente fora das câmeras. E um detalhe: Baldwin, Streep e Keaton tinham pouco mais de 50 anos nas filmagens – não eram exatamente idosos.
Meryl Streep também coestrelou com Tommy Lee Jones na comédia romântica Um Divã para Dois (2012), sobre uma mulher que tenta trazer a magia de volta ao casamento e ao sexo com o marido.

O sexo dos avós

Direito de imagemREX SCHUTTERSTOK
Image captionAnne Reid seduz um jovem Daniel Craig em 'Recomeçar', de 2003
"De maneira geral, gostamos da ideia de que ainda podemos fazer sexo até ficarmos velhos, mas não queremos ver os detalhes", diz Marco Weijers, editor de cinema do jornal holandês De Telegraaf.
Andrew Haigh tem sua própria teoria sobre por que o público reage com choque e até repulsa. "A visão deturpada que temos vem de quando somos jovens e nossa primeira relação com idosos costuma ser com nossos avós. A maioria dos avós não fala de sexo, então não percebemos que eles tenham desejo ou necessidade de transar".
Já Rebecca Jones, especialista em sexualidade de idosos da Open University, na Grã-Bretanha, acredita que o ser humano tem "uma falha psicológica, que nos faz recuar quando pensamos em nossos pais ou avós fazendo sexo".
"Seria natural pensarmos que todos nós vamos envelhecer, mas estamos tomados pelo padrão da beleza jovem e pela ideia de que o melhor sexo é aquele entre pessoas com 20 e poucos anos", afirma Jones.

Preconceito antigo

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Image captionMeryl Streep, de 66 anos, vive uma roqueira sexy no novo 'De Volta para Casa'
A rejeição ao desejo sexual depois da meia-idade em algumas culturas existe desde a Antiguidade. Na comédia Assembleia de Mulheres, de 391 a.C., o dramaturgo grego Aristófanes narra como mulheres tomam conta do Parlamento ateniense e aprovam um decreto obrigando os homens que quiserem transar com jovens a primeiro fazer amor com uma mulher mais velha.
Em 1387, o escritor britânico Geoffrey Chaucer relatava em um de seus Contos da Cantuária a história de um idoso que acreditava que poderia satisfazer sua jovem esposa. É uma trama que ainda vemos por aí, apesar de no cinema os homens mais velhos terem uma vida mais fácil do que as mulheres.
A repulsa que o corpo de uma mulher mais velha pode provocar na sociedade é vista claramente em Ensina-me a Viver, de 1971, um filme de Hal Ashby feito no auge da era hippie. Harold, um jovem obcecado pela morte, conhece Maude, de 79 anos, em um funeral. Ele se encanta pela maneira como ela vive tudo intensamente, mas ouve de um padre: "A ideia do seu corpo jovem e firme se entrelaçando com as carnes murchas dela... me faz ter ânsia de vômito".
Mais recentemente, em 2003, a atriz Anne Reid, aos 70 anos, causou espanto quando sua personagem seduziu um jovem Daniel Craig no filme britânico Recomeçar.

Europa mais ousada

Clare Binns, diretora de programação da Picturehouse, distribuidora independente e dona de uma rede de cinemas alternativos na Grã-Bretanha, acredita que a reticência anglo-saxã, que também permeia Hollywood, tem algo a ver com o tabu.
"O cinema europeu continental sempre foi mais explícito em relação a isso do que as produções britânicas", afirma. Bons exemplos recentes são Fanny Ardant, em Os Belos Dias, envolvendo-se com um homem 20 anos mais novo; ou Catherine Deneuve e seu amante no road-movie Ela Vai. Ambos são de 2013.
Mas, para o editor Marco Weijers, até mesmo a indústria cinematográfica europeia, tida como mais experimental e vanguardista, tem dificuldades de mostrar cenas de sexo em que os dois atores são idosos. "Temos o alemão Cloud 9, de 2008, que é bastante explícito ao mostrar amantes com mais de 60 anos. E um documentário holandês do ano passado que mostra gente dessa idade ou mais velha e que tem uma vida sexual ativa. Mas é só", diz.
Será que a geração baby boom, que espera mais de suas vidas do que as gerações passadas, pode reverter essa situação? Talvez. Afinal, Liam Neeson e Helen Mirren, que têm mais de 60 anos, ainda são considerados bonitos e atléticos o suficiente para estrelarem filmes de ação. E Meryl Streep é uma roqueira sexy em sua mais recente aparição, De Volta para Casa.
Mas será preciso que algum deles faça algo mais picante para que o público aceite ver corpos mais velhos nas telas?
Fonte:http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150825_vert_cul_sexo_idosos_ml.shtml