O QUE QUEREM OS HOMENS SENSÍVEIS ?

O que querem os homens sensíveis? (Foto: Getty Images)

O que querem os homens sensíveis?

Um novo romance, escrito por uma mulher, entra na mente de um jovem sedutor. Tenta entender o que ele deseja – e por que as relações naufragam


                                                                                                                                                                      IVAN MARTINS
23/10/2015 - 22h06 

Nathaniel é um sujeito de sorte. Inteligente e bonito, ele acaba de fazer 30 anos. Sua carreira de escritor começa a decolar e as mulheres sofisticadas de Nova York parecem fazer fila para se apaixonar por ele. Se fosse o personagem de um romance masculino às antigas, Nathaniel talvez se perdesse na vida sensual e frívola da metrópole. Não é o caso. Com seus cabelos fartos e seus modos politicamente corretos, ele foi concebido e pacientemente construído ao longo de quatro anos por uma mulher, a escritora americana Adelle Waldman. Como fruto de uma mente feminina brilhante e algo vingativa, Nate não desfruta inteiramente seus encantos. É um homem que sofre ao perceber o poder destrutivo de seus dons de sedutor.
Ele se culpa por muita coisa. Pelo mendigo, pela degradação ambiental e, sobretudo, por seu próprio comportamento com as mulheres. Ele as atrai, se entusiasma por elas, mas, passado algum tempo, quando se encontram rendidas e apaixonadas, começa a perceber defeitos intoleráveis que, lenta e dolorosamente, o afastam – sempre cheio de culpa, mas não tanto a ponto de agir de outra forma.

Se você acha que conhece algum sujeito assim, tudo bem. Nathaniel foi desenhado propositalmente como uma espécie de Emma Bovary de calças, uma tese sobre o que significa ser homem num momento da história em que as mulheres se encontram em relativa desvantagem sexual e reprodutiva. Assim como a personagem de Gustave Flaubert (1821-1880) iluminava e ao mesmo tempo caricaturava um comportamento feminino no século XIX, Nathaniel ilustra com charme e derrisão os privilégios masculinos no início do século XXI, quando o relógio biológico parece avançar somente para as jovens profissionais bem-sucedidas e solteiras.
Nos Estados Unidos, onde Os casos de amor de Nathaniel P. foi lançado em 2013, as mulheres já se referem aos homens volúveis como “nathaniéis” – e recomenda-se aos pais que deem o livro às filhas adolescentes para que elas aprendam a lidar com esse tipo novo de predador. Nathaniel P. acaba de ser publicado no Brasil (Editora Casa da Palavra, 254 páginas, R$ 27) depois de ser apontado por críticos americanos e europeus como o melhor livro de 2013.
Antes do sucesso de Nathaniel P., sua autora era uma jornalista de 30 anos que trabalhava para revistas e sites de prestígio, sem emprego fixo. Já escrevera um romance ambicioso, recusado por editoras. Com o apoio da família e do marido, sete anos atrás ela passou a se dedicar só à história de Nathaniel. Deu certo. O romance vendeu 40 mil cópias de saída e virou assunto de todas as conversas. Uma sequência está sendo lançada. Discute-se a feitura de um filme. Adelle Waldman transformou-se numa celebridade relutante cujo círculo de amigos agora é investigado pela imprensa em busca do quem é quem de Nathaniel P.
“Muitas mulheres que conheço têm dificuldade para entender alguns homens com quem estivemos envolvidas. Eles não eram pessoas más – frequentemente eram talentosos e charmosos –, mas seu comportamento no contexto do relacionamento parecia imprevisível e capaz de machucar”, ela disse numa entrevista ao jornal The New York Times. “Acho que Nate é profundamente liberal, politicamente correto e que acredita na igualdade proposta pelo feminismo. Mas acho que cultiva uma boa dose de sexismo, que se reflete nas parceiras que escolhe: igualdade intelectual ou mesmo moral não são pré-requisitos para ele. Também acho que tem um relacionamento com a aparência das mulheres que acho problemático, mas não atípico.”

Adelle escreve como fala: com leveza e ironia. É difícil parar de ler seu livro. A vida dos jovens intelectuais do Brooklin, com suas aspirações profissionais e afetivas, é descrita com vigor e simpatia. A eloquência com que ela se expressa é elevada mesmo para os padrões de escritoras americanas como Gillian Flynn (autora de Garota exemplar) e Donna Tartt (de O pintassilgo). Seu livro é permeado de comentários sociais sagazes e imagens surpreendentes, mas não parece ser essa a causa de seu sucesso. Os leitores se identificam com seus personagens e reconhecem neles seus conhecidos. Sua história captura o espírito do tempo, e de forma profundamente inusual para uma mulher: olhando o mundo e as relações entre os sexos com os olhos de Nate, do ponto de vista masculino, de forma quase sempre convincente. Às vezes, diante de uma percepção especialmente sutil de Nate sobre o comportamento de um outro personagem, o leitor percebe que a autora perdeu a mão. No mundo real, mesmo homens inteligentes são relativamente toscos quando se trata de entender detalhes da personalidade alheia. No livro, Nate às vezes pensa com os neurônios e os hormônios de sua criadora, mas isso não atrapalha a história.

OLHAR MASCULINO Adelle Waldman, a criadora do personagem Nathaniel. Ela descreve bem como relações avançam e morrem (Foto: Melanie Burford/Prime for The Washington Post via Getty Images)
Adelle constrói personagens com afeto e precisão, depois disseca cirurgicamente a evolução de suas relações românticas. Esperançosas e felizes, no início. Amargas e tensas conforme avançam. Ela tem um olhar especialmente perspicaz e compassivo para o que acontece com as namoradas de Nate ao longo do tempo. Principalmente Hanna, a mais importante e interessante delas. Antes altivas, elas gradualmente sucumbem, solícitas e ansiosas, diante da crescente indiferença dele. Hanna expressa o paradoxo de forma dolorosamente clara: “Se há um mês alguém me dissesse como as coisas estariam entre nós, eu teria respondido, não, eu nunca ficaria assim. Mas fico cedendo. Gosto de você. Meu problema é que eu gosto de você. Há algo em você...”. Quem nunca se encontrou em um dos lados de uma conversa desse tipo?
Nathaniel, como os ex-namorados de Adelle em que ele se baseia, não é um canalha. É sensível, criado por uma mãe exigente e instruída, num ambiente tolerante. Seu problema parece ser o contrário: ele se importa demais em agradar às mulheres, sobretudo as bonitas. É incapaz de manter com elas uma relação equilibrada. No início, fascinado, não consegue enxergar defeitos, esboçar críticas ou confrontá-las. Cede permanentemente, concilia exageradamente e acumula ressentimentos. Quando o interesse sexual arrefece, depois de meses, seu lado B vem à tona e desconcerta as parceiras. Aonde foi o rapaz apaixonado e atencioso? Elas reagem à nova situação com lágrimas e autopiedade, e ele, repugnado, torna-se cruel. Passa a exercer o poder de quem não depende do outro emocionalmente. O que elas fizeram de errado para provocar esse desfecho? Não sabem. Ele também não. As regras do jogo não são claras, mas Nate parece estar com as melhores cartas.
O que o livro não consegue explicar de forma inteiramente convincente é o fascínio que Nathaniel exerce sobre as mulheres. Ele está sempre medindo as próprias palavras, sempre preocupado demais com as opiniões de seus amigos, sempre obcecado, narcisisticamente, pelo avanço de sua carreira como escritor – não pelo teor daquilo que escreve. Suas ideias mais interessantes se manifestam na forma de diálogo interior. O que ele diz às moças que seduz é quase sempre banal. O leitor é levado a se perguntar por que garotas inteligentes e aparentemente independentes como Hanna embarcam na gangorra emocional de um cara desses. Seu apelo não é claro, ao menos para o público masculino. Talvez Adelle esteja sugerindo, sem o dizer, que o macho alfa do século XXI é mesmo tonto, superficial e hesitante, tornado irresistível apenas pela urgência emocional e biológica das mulheres ao redor dele. Seria cruel, mas conteria algo de verdade.

Fonte:http://epoca.globo.com/vida/romance-urbano/noticia/2015/10/o-que-querem-os-homens-sensiveis.html

O que querem os homens sensíveis? (Foto: Getty Images)

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