LIBERTAÇÃO SEXUAL : UM CAMINHO SOLITÁRIO E SINUOSO

Foto do ensaio "AFETO" da Além – Coletivo de Arte.


Libertação sexual: um caminho solitário e sinuoso

Texto de Jussara Oliveira.
Fico observando e refletindo sobre posicionamentos que vejo dentro do feminismo sobre a sexualidade. Muito além dos debates mais populares e acalorados — sobre violência sexual ou prostituição — existe todo um tabu sobre a prática da liberdade sexual.
  • Quando um consentimento é consentimento de fato?
  • Quando a conduta sexual de uma pessoa afeta a imagem de um grupo?
  • Quão libertas ou castas podemos ser, afirmando com certeza que não é o patriarcado que está direcionando nossas escolhas?
  • De que forma podemos separar as nossas escolhas das escolhas dos outros?
  • Quanto podemos expor nossa sexualidade sem que isso contribua para a fetichização e objetificação?
  • É possível problematizar algumas práticas sem julgarmos moralmente as pessoas envolvidas?
Existe resposta simples para alguma dessas questões?
Não digo que o assunto não deva ser debatido, pelo contrário. Acho importante discutir, mesmo que não seja para chegar num consenso. A única coisa que sei, com certeza, é que não sou quem vai ser a régua para a vida de ninguém e que não posso falar pelos outros. O caminho para a descoberta da própria sexualidade é um caminho solitário e único, tanto quanto diverso.
Já tive várias oportunidades de conversar e ouvir muito sobre a experiência de outras pessoas neste tema. Toda a insegurança da descoberta, a luta contra traumas e violências, contra tabus, contrapadrões de corpos e beleza, contra moralidade religiosa, a busca das sexualidades diversas, a falta de informação, as experiências fracassadas, as frustrações, a pressão social sobre a virgindade e pureza feminina, o desafio da busca do prazer feminino,  a pressão sobre a virilidade masculina…
Algumas dessas dificuldades são pessoais, outras estão relacionadas a opressões que determinados grupos sofrem. E, uma pessoa só, pode ser sozinha uma interseção de grupos, consequentemente, de opressões. Por isso, as respostas para as perguntas que faço não são fáceis.
Mas sabe, isso definitivamente não quer dizer que o sexo ou a sexualidade. por si só, sejam condenáveis. Muito pelo contrario, no meu modo de ver. Precisamos experimentar aquilo que nos tem sido negado, que é a agência sobre nossos corpos, nosso prazer e as nossas experiências. E, também, ressignificar a experiência do gozo que tem sido restrita a vontade masculina.
Sobre a hipersexualização, que algumas pessoas tanto apontam como sendo um problema, tenho cá minhas dúvidas se podemos interpretar isso como uma grande exposição da sexualidade. Na minha opinião, o que ocorre na verdade é uma hiperobjetificação, porque a sexualidade apresentada e incentivada pela mídia e por diversos espaços é uma sexualidade plástica, falocêntrica e distante da realidade. Existe pouco espaço para discutir a sexualidade de fato. Para experimentarmos nossa sexualidade de forma lúdica e sem grandes julgamentos morais (positivos ou negativos).
Entendo que, neste campo, alguns grupos estão em posições extremamente mais frágeis e sujeitos a violência do que outros. Mas, pessoalmente, não acho que seja por meio da negação da sexualidade que a gente vai se libertar. A condenação e o estigma de algumas práticas, profissões e posicionamentos só afasta as possíveis vítimas de violência — dentro desses contextos — de conseguirem problematizar sua situação e buscar ajuda por causa do temor de julgamentos e falta de apoio. Além de estigmatizar pessoas — que tenham conseguido alguma autonomia em ambientes sexualmente libertos — de forma negativa e generalizante.
Alias, é possível que nada do que, nós (minorias), fizermos seja considerado pela maioria como libertação sexual, porque a opressão, simplesmente, não nos dá essa possibilidade (e não nos dará) de sermos agentes dos nossos corpos. Viver a sexualidade (de qualquer jeito e em qualquer nível) ou não… para muitas pessoas vai ser ser sempre uma transgressão. Porque ousarmos tomar nossas próprias decisões já é uma transgressão.
Creio que, no ativismo, o melhor que podemos fazer é aceitar essa diversidade de pessoas, de histórias, de grupos e darmos todo o suporte para que cada indivíduo busque ao máximo sua autonomia de escolha. Isso pode ser pouco muitas vezes, mas não podemos nos colocar na posição de juízes e/ou juízas da libertação alheia, muito menos devemos assumir a posição de sermos nossos próprios algozes nessa busca tão sinuosa.
Fonte:http://blogueirasfeministas.com/2014/07/libertacao-sexual-um-caminho-solitario-e-sinuoso/

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