A MONOGAMIA É UMA PRISÃO ? SOBRE A DIFICULDADE DE VIVER O POLIAMOR



A monogamia é uma prisão

O tradicional amor romântico-monogâmico é lindo. Pena que ele mata e reprime e enlouquece. Mas ó, tirando isso, tudibom.
Antes que as pessoas monogâmicas se sintam atacadas, eu explico:
O que fode o mundo, o que mata e reprime e enlouquece, não é simplesmente você (pessoa fofa e romântica) estabelecer um pacto monogâmico de transar apenas com uma única pessoa que escolheu.
O que fode o mundo, o que mata e reprime e enlouquece, é a monogamia institucional quase-compulsória da nossa sociedade; é esse pacto ser vendido na mídia, nas famílias, nas igrejas, nas escolas, nos filmes como a única opção existente para se relacionar e constituir família; é tachar de imorais, doentes e antiéticos quaisquer arranjos amorosos e sexuais fora do sistema monogâmico; são as pessoas adotarem o pacto monogâmico não porque refletiram a respeito e escolheram a monogamia dentre um infindável número de outros tipos de relacionamentos disponíveis, mas simplesmente porque nunca souberam que havia outra escolha possível.
O único objetivo desse texto é mostrar que existem outras escolhas possíveis. Outras alternativas, arranjos, pactos. Outras maneiras de viver, de amar, de transar.
Não quero que você abandone a monogamia mas somente que reflita sobre ela.
Quero te mostrar que você não tem obrigação de entrar em um pacto monogâmico. Que você tem a liberdade de escolher a monogamia (sim, por que não?) ou também qualquer outra das infinitas formas de viver, de amar e de transar.
A escolha é sua. Você é livre.

poliamor

Monogamia, poliamor & relações abertas: o que é, o que não é

Relações ou relacionamentos abertos ou poliamor se referem a relacionamentos entre duas ou mais pessoas, livres e adultas, onde não existe a restrição monogâmica quanto a envolvimentos românticos, amorosos ou sexuais com outras pessoas.
(Essas definições são muito debatidas e nenhum livro ou site concorda com o outro. Para fins desse meu texto introdutório, vou utilizar os termos “poliamor”, “relação aberta” e “relacionamento aberto” como sinônimos de “não-monogamia”, podendo significar todos os outros arranjos possíveis, desde um casal hétero legalmente casado cujos cônjuges podem transar fora até um grupo poliamoroso com pessoas de vários gêneros e orientações que podem transar entre si mas não com ninguém de fora, passando inclusive por arranjos mais fluidos, puramente sexuais e nada amorosos ou românticos, etc etc. Para se informar sobre os debates e definições, dê uma olhada aqui, aqui e aqui.)
Poliamor não é poligamia nem poliandria.
Poligamia é onde um homem pode possuir várias mulheres mas uma mulher não pode possuir mais de um homem. Poliandria é o oposto. Ambos são sistemas de dominação.
Já nas relações abertas, todos os participantes, homens e mulheres, pessoas cis e trans*, pessoas hétero, homo e bissexuais, chegam e permanecem sempre em pé de igualdade: pessoas humanas adultas que podem usar e dispor de seus corpos livremente, consensualmente.
Poliamor não é swing.
Swing se refere a uma prática sexual entre casais onde, em uma situação bem específica e bem delimitada, ambos os parceiros podem transar com outras pessoas.
Por isso, via de regra, o swing acontece em contextos monogâmicos, onde o tesão é justamente aquela “transgressão controlada” do pacto do casal.
Pessoas poliamorosas também podem frequentar o swing (apesar de não desfrutarem do prazer dessa pequena transgressão) e praticantes do swing também podem ser praticantes de poliamor, mas uma coisa não tem necessariamente nada a ver com a outra.
Poliamor não é (necessariamente) putaria desenfreada.
Quem quer transar com uma pessoa por noite normalmente prefere uma solteirice desimpedida à relações, mesmo abertas.
É importante lembrar que um relacionamento aberto é, antes de tudo, um relacionamento. Um relacionamento com pactos, compromissos, amor, planos — e o que mais as pessoas participantes consensualmente decidirem.
(O que não exclui, naturalmente, pactos de putaria desenfreada. O problema é o preconceito é achar que qualquer coisa que não seja monogamia é putaria desenfreada.)
Uma amiga uma vez me perguntou se eu não tinha “períodos monogâmicos” na vida e respondi que não, que eu seria completamente incapaz de viver assim.
E ela ficou impressionadíssima, como se eu tivesse dito que transava com uma pessoa diferente por dia, como se rejeitar a monogamia significasse algum tipo de obrigação ou compulsão de sair toda noite procurando alguém para fuder! (Fico cansado só de imaginar uma coisa dessas!)
Mas não.
Monogamia não significa simplesmente “transar com apenas uma pessoa”. Se fosse, não haveria nada de errado com a monogamia; ela não seria tão nociva e patriarcal e repressora e assassina; e eu, e a maioria das pessoas que praticam o poliamor, de fato teríamos sido monogâmicas por grande parte de nossas vidas.
Mas a monogamia é o sistema. Não é apenas um pacto entre duas pessoas, geralmente de sexos opostos, de só poderem se relacionar de forma amorosa, romântica ou sexual uma com a outra, mas também um pacto público e socialmente aceito, vigiado e aplicado por toda a nossa civilização cristã-monogâmica, mantido pela família, pelos costumes, pela religião, pelas leis, pela polícia.
(Vale lembrar que, até pouco tempo atrás, quebrar o pacto monogâmico era crime tipificado no código civil, dava prisão, justificava divórcio, podia levar à perda de pensão alimentícia e guarda das crianças e até mesmo — se o homicida fosse homem, naturalmente — atenuava o homicídio.)
Então, se estou em um relacionamento aberto e passei um ano inteiro transando “apenas” com a minha companheira (como se fosse pouco ou insuficiente transar apenas com ela!), isso não quer dizer que passei o ano monogâmico. Deus me livre.
Pelo contrário, passei o ano tão livre quanto sempre fui, primata adulto e sexual que sou, flertando, vivendo, namorando, dispondo da minha vida e das minhas vontades ao meu bel-prazer.
Um privilégio, sem dúvida.

A dificuldade de viver o poliamor

Relacionamentos abertos são difíceis. Trabalhosos. Quase impossíveis.
É duro encarar de verdade que a pessoa ao seu lado é tão livre quanto você. Que você está sim o tempo todo competindo com todas as outras pessoas do mundo pela atenção e amor e afeto da pessoa ao seu lado. Que ela pode sim, a qualquer momento, escolher ser feliz, fazer amizade, confidenciar, se divertir, se apaixonar por outra pessoa e que isso não é errado, não é canalha, não é traição: é nosso direito inerente de primatas livres.
Pode ser enlouquecedor encarar de frente a completa e inescapável falta de segurança e de estabilidade que define a condição humana, e aceitar com tranquilidade (ou, ao menos, resignação) o fato de que a pessoa ao seu lado pode sim ir embora qualquer momento.
Mais difícil ainda é aceitar tudo isso ao mesmo tempo em que você ama de verdade essa outra pessoa (ou pessoas) com quem você está em uma relação compromissada, cúmplice, confidente, onde existem sonhos e planos compartilhados.
Mas, por outro lado, relacionamentos monogâmicos, com toda sua carga de expectativas irreais e inalcançáveis, com toda sua violência repressiva, são simplesmente intoleráveis.
Então, entre o difícil e o intolerável, a escolha é simples.
Pelo menos, pra mim.
"Sem o poliamor, não é a minha revolução."
“Sem o poliamor, não é a minha revolução.”

Qual é exatamente o problema de sua parceira transar com outra pessoa?

A minha maior dúvida em relação à monogamia é a seguinte:
Se estou longe e minha companheira transa com outra pessoa… por que isso é um problema?
Se a pessoa foi à minha casa e comeu uma maçã, eu de fato estou com uma maçã a menos. Se ela transou com minha companheira… estou com menos o quê? Perdi o que exatamente? Sexo é soma-zero? Essa transa significou menos uma transa pra mim?
Por que é uma terrível traição minha companheira passar a tarde transando com alguém mas não, digamos, jogando tênis ou vendo tevê ou cozinhando com essa mesma pessoa?
Nunca nenhuma pessoa monogâmica conseguiu me responder a uma simples pergunta:
“Qual é exatamente o problema da pessoa com quem você está transar com outra pessoa?”
A única resposta válida que já ouvi é sempre tautológica:
“É errado porque temos um acordo de não fazer isso”.
Ok. Muito justo. Então, mudo a pergunta:
“Por que sua parceira transar com outra pessoa é um problema tão grande que seja necessário fazer um acordo específico para impedir que isso aconteça?”
Ou seja: monogamia, por quê?
* * *

A monogamia vende uma falsa segurança

Quando as pessoas monogâmicas falam contra as relações abertas, o comentário que mais fazem é:
“Ah, se a pessoa com quem estou puder sair com outras, então aumentam as chances de me largar!”
Esse comentário, que é tão repetido que deve soar como lugar-comum para a maioria das pessoas, revela bastante da nossa cultura repressora romântico-monogâmica: do medo abissal que temos de rejeição, da nossa gigantesca insegurança, da leviandade com que encaramos nossos relacionamentos.
Será que as pessoas que fazem esse comentário são mesmo tão inseguras? Têm uma opinião assim tão baixa de si próprias? Acham realmente que qualquer uma com quem suas parceiras saiam vai ser melhor que elas? Se imaginam tão cercadas de seres superiores, pessoas mais charmosas, que fodem melhor, só esperando pela chance de lhes roubar a pessoa amada?
Será que suas concepções de relacionamento, do que seja um compromisso verdadeiro entre pessoas que escolheram caminhar juntas, são mesmo assim tão superficiais?
Talvez seja meu moralismo poliamoroso falando, mas como pode ser sério e profundo, comprometido e verdadeiro, um relacionamento que entra em colapso e se destrói… só porque uma das parceiras transou com outra?
Era essa a única cola que unia esse casal? Era só isso que importava nessa relação? Cadê o amor, o companheirismo, os planos compartilhados, a defesa da família? Era mesmo só o pacto monogâmico-restritivo que prendia essa gente? Uma vez quebrado, não sobra nada? Liberou geral?
Será que acham mesmo que bons relacionamentos são tão fáceis de encontrar assim? Que basta uma foda caliente na copa da empresa para valer a pena jogar fora o casamento e construir uma nova relação de amor e compromisso?
Na verdade, ouvindo as pessoas monogâmicas falarem sobre seus dilemas e prioridades, a pergunta que mais me faço é:
Será que o sexo deveria mesmo ser tão importante assim? Não está se dando importância demais ao simples ato de foder?
"Por um orgasmo livre, coletivo & popular!"
“Por um orgasmo livre, coletivo & popular!”

A monogamia considera saudável terminar um relacionamento só por causa de sexo

Uma vez, uma pessoa religiosa me perguntou:
“Se deus não existe, o que te impede de matar sua vizinha agora?”
E eu respondi:
“Olha, se a única coisa que te impede de matar sua vizinha agora é acreditar em deus, que você não pare de acreditar nunca!”
Com as pessoas monogâmicas, o diálogo seria parecido, mas oposto. Quando fizessem o comentário acima (“se a pessoa com quem estou puder transar com outras pessoas, aumentam as chances de ela me largar!”), eu responderia:
“Olha, se você acha mesmo que sua parceira te largaria só porque transou com outra, ou se você largaria sua parceira só porque ela transou com outra, talvez estivesse na hora de vocês duas buscarem outras parceiras com quem possam ter uma relação mais profunda e comprometida, séria e verdadeira, que vá além do simples sexo…”
Fico imaginando como eu me sentiria mal se minha companheira me falasse algo assim. Eu responderia:
“Olha, se você só está comigo por causa do pacto monogâmico, então pode ir. Está liberada.”
Mas, naturalmente, falo isso porque nunca estive em uma relacionamento monogâmico.
Para as pessoas monogâmicas, deixar de transar com alguém com quem querem transar só porque se está em um relacionamento monogâmico é não apenas aceitável, como também (deus me livre) desejável.
Para mim, isso soa tão triste, tão terrível, tão pequeno, tão mesquinho.
Devo ser mesmo todo do avesso.
* * *

A monogamia é obcecada com sexo

É um paradoxo: as pessoas monogâmicas quase sempre encaram quem pratica o poliamor como se fôssemos pessoas libertinas insaciáveis que só pensam e só se importam com sexo.
Mas quem mata em defesa da honra e separa famílias por causa de sexo são justamente as pessoas monogâmicas.
Me parece que são elas que pensam demais em sexo.
poliamor.

A monogamia mente ao dizer que a pessoa que ama não sente tesão por outras

As pessoas monogâmicas e eu concordamos em um ponto essencial:
Não pode ser saudável um relacionamento que termina porque uma das pessoas participantes transou com outra.
A diferença é que elas dizem que, se o relacionamento estivesse saudável, nenhuma das pessoas teria nem vontade de transar com outra (será que acreditam mesmo nisso?)
E eu digo que, se o relacionamento estivesse saudável, não teria terminado por uma besteira dessas.

A monogamia é terreno fértil para a mentira e a falsidade

Houve época em que eu me envolvia com pessoas monogâmicas e comprometidas. Eu racionalizava: “minha relação é com ela, não sou responsável pelo seu compromisso com uma terceira.”
Namorei uma pessoa casada, linda e inteligente, que mentia e inventava, se virava do avesso e fazia muitos sacrifícios… para poder transar comigo. Como não me sentir lisonjeado? Afinal, ela deveria gostar muito de mim, não? Meu ó-tão carente ego só faltava ronronar de prazer quando ela entrava pela porta, estalando seus saltos altos.
Mas a verdade é que ela dormia todas as noites com outra pessoa. Mentia para sua cônjuge de forma perversa e descarada mas, ainda assim, era com ela que subia a serra, assistia aquela nova série e fazia planos para o futuro. E o meu ó-tão carente ego passava as noites uivando para a lua, triste e apaixonado, querendo falar com ela mas proibido de telefonar fora do horário comercial.
Por fim, depois de muitos e muitos anos, apesar de eu amá-la demais, fiz o que tantos amantes na história fizeram: terminei eu mesmo o relacionamento. Porque percebi que nunca poderíamos construir nada. Eu não conseguiria confiar em alguém capaz de passar vários anos mentindo para a pessoa mais próxima a ela. Que aliás não era nem nunca fui eu.
Aprendi minha lição. Não me envolvo mais com monogâmicas comprometidas.
Hoje, as pessoas que caminham ao meu lado são livres e donas dos seus desejos, capazes de assumi-los e articulá-los, e de se colocarem publicamente no mundo como minhas companheiras.
Já houve poliamor no horário nobre da rede Globo. Quem diria.
Já houve poliamor no horário nobre da rede Globo. Quem diria.

E daí se você sofrer uma rejeição?

Me perguntaram:
“os monogâmicos tratam disso [relações extra-conjugais] como um problema pelo simples fato de que na relação deles, se um dos dois tiver relações sexuais com outras pessoas, existe a grande possibilidade deste começar a gostar mais de uma dessas outras pessoas e simplesmente não querer mais continuar se relacionando com aquele. Não concorda?”
Não, não concordo.
Esse medo é fruto de um enorme e constitutivo complexo de inferioridade que nos enfiam goela abaixo desde a infância.
Só seria (teoricamente) verdade se você fosse de fato pior do que a maioria das pessoas, portanto, se seu cônjuge transasse com outra pessoa, seria provavelmente com alguém melhor, e, logo, ela iria querer te trocar por essa pessoa.
(Repara que esse seu medo presume não só que você é uma pessoa bem abaixo da média mas também, de maneira bem ofensiva, aliás, que a pessoa que está com você é terrivelmente superficial e leviana.)
Mas por que não pensar que ela pode transar com alguém pior do que você, e voltar correndo pros seus braços, te valorizando mais? Ou que ela pode transar com alguém tão bom quanto você e querer continuar transando com os dois? Ou que ela pode transar com alguém que, no geral, é melhor que você, mas que ela quer continuar com você porque, sei lá, você faz aquela coisa tesuda com a a língua que só você sabe fazer?
(Aliás, o que quer dizer exatamente ser “melhor” ou “pior” no sexo? Quais são os critérios? Existe uma medição assim tão objetiva? Será que, muitas vezes, o que faz o sexo ser “melhor” ou “pior”, longe da própria mecânica em si do ato, não são as emoções, o carinho, o afeto, a confiança que trazemos para a cama?)
Ou, vai ver, quem sabe, o sexo não é tão importante assim e ela vai querer continuar com você, apesar de ter transado ou continuar transando com outra pessoa… porque ela gosta de você, porque ela gosta do jeito que você prepara o ovo frito, porque ela valoriza a vida que construíram juntos?
Por fim, se sua companheira não quiser mais ficar com você e sim com outra pessoa… e daí?
Por que não desejar que sejam felizes e ir você buscar novas pessoas com quem se relacionar? Será que é uma tragédia tão grande assim sua companheira encontrar outra pessoa e ser feliz com ela, com ou sem você?
Se ela seria mais feliz transando (ou namorando, ou vivendo, etc) com essa outra pessoa, você prefere mesmo que ela seja infeliz ao seu lado?
Se isso não é egoísmo, não sei mais o que é.
Pior: as pessoas admitem abertamente esse egoísmo tão feio e tão abissal como se fosse a coisa mais normal, mais aceita do mundo.

A monogamia não aumenta a segurança do seu relacionamento

De modo bem real e prático, acredito que estar em uma relação aberta significa menos, e nunca mais, chances de sofrer uma rejeição.
Em um casal monogâmico, uma súbita paixão por uma terceira pessoa quase sempre significa uma crise fatal. Em um contexto poliamoroso, quase nunca.
Nas palavras de Paloma, uma amiga com anos e anos de experiência no poliamor:
“Tem um negócio que eu explico sempre sobre isso de “ser trocado por alguém”. Ninguém sabe como será o dia de amanhã e como eu me sentiria se o meu parceiro se apaixonasse, mas em tese o poliamor dá *menos* probabilidade de “troca”, e não mais.
Na monogamia, a paixão por outra pessoa é um xeque-mate, uma bifurcação. No meio poli, esse troço tem até nome: NRE, ou new relationship energy.
Todas as partes envolvidas sabem (ou deveriam saber) que uma paixonite é uma paixonite e não um ultimato. Lógico que pode ser chato, principalmente na parte de administração do tempo, das expectativas e da noção, mas com conversa tudo se ajeita.
Falei lá no começo que não sei como seria se ele se apaixonasse, mas o contrário já aconteceu.
Tive um rolinho com um cara que desandou pra uma paixonite de rolar na sarjeta uivando eu quero esse homem. Não só o meu heróico consorte foi exemplo de paciência e amizade, como eu não pensei nem um minuto em deixá-lo.
Enfim, acho que de mono a poli há umas coisas que são mudanças de paradigma mesmo, por mais batida que seja a palavra. Não dá pra jogar um jogo com as regras do outro.” (grifos meus)
E talvez essa seja realmente a maior dificuldade: encontrar as novas regras para o jogo que estamos criando, todo dia, com cada uma de nossas ações e decisões.

As dificuldades do caminho menos trilhado

Quem quer viver uma relação monogâmica tem todo o apoio da moral conservadora, encontros de casais em cristo, colunas de relacionamento em jornais, livros de auto-ajuda, conselhos da vovó.
Quem abre um novo caminho não tem esses luxos.
A pessoa poliamorosa, quando tem problemas nos seus relacionamentos abertos (e são muitos, a vida na fronteira é dura e complexa), não pode usufruir da sabedoria acumulada das suas avós, a Bíblia não colabora, as colunas sentimentais e livros de auto-ajuda sempre presumem a monogamia e até as pessoas do seu círculo de amizades, quando você abre seu coração e expõe suas vulnerabilidades e inseguranças, fazem comentários insensíveis e indesculpáveis como
“Viu, é por isso que essa merda não dá certo! Por que você não faz que nem todo mundo e pronto? Não seria mais fácil?”
Ainda tem essa. Além de todas as dificuldades do caminho menos trilhado, ainda querem lhe puxar de volta para a estrada principal. De onde você fugiu conscientemente.
Uma pessoa poliamorosa não tem quem lhe diga o que é certo e errado, moral e imoral: ela precisa escrever, todo dia, com sua consciência e seus atos, o seu próprio livro de regras. Cada passo tem que ser dado como se o mundo tivesse sido criado ontem. Cada rodinha tem que ser reinventada do zero.
De vez em quando, me acusam de ficar “reafirmando” meu estilo de vida, como se estivesse me gabando, como se fosse inseguro, como se quisesse convencer os outros.
Mas todas as forças do mundo nos impelem a nos conformar, a nos transformar no padrão que exigem de nós, a nos moldar em pais de família trabalhadores, consumidores monogâmicos, heterossexuais conservadores.
Ser quem queremos ser é uma luta diária. um exercício constante de bater o pé, se recusar a ser coagido, articular quem se deseja ser — e, então, e essa é a parte mais difícil, efetivamente SER essa pessoa.
Quem está sendo o que a sociedade espera que seja não precisa se auto-afirmar.
Quem está na contramão precisa.
É necessário articularmos sempre o nosso caminho — justamente para não sair dele.

poliamor é errado!
poliamor é errado!

A monogamia cria expectativas irreais

Pergunta:
“A monogamia não é só uma questão de fidelidade. É uma questão de foco. Namorar com alguém que namora ou sai com outro significa dividir potencial de construção a dois. Quem tem duas relações não consegue satisfazer (na maior parte das vezes) a ninguém. Amante e marido/esposa sempre sentem-se insatisfeitos e o bígamo pressionado por não dar conta de nenhum dos dois e ainda assim se dedicar muito mais a sua relação afetiva do que cada um dos cônjuges em separado. Como resolver isso?”
Ou seja: “dá pra satisfazer o outro?”
Tem dois problemas aí.
O primeiro é jogar em alguém o ônus de satisfazer outra pessoa. Não sou eu que tenho que satisfazer minha parceira, nem ela que tem que me satisfazer. Não delego minha satisfação pessoal pra ninguém. Esse ônus insano e impraticável de “satisfazer o outro” é uma das coisas que torna a monogamia inviável.
Não existe, nem teria como existir, essa pessoa mística e mágica que preencheria todos os seus momentos, supriria todas as suas carências, iria com você em todos os shows das bandas que você gosta e nunca te faria ir em shows de bandas que você não gosta e, por fim, faria com que você nunca, nunca sentisse vontade ou desejo por outra pessoa, nunca mais, para todo o sempre!!
E, em segundo lugar, de maneira geral, eu diria que as pessoas em relações abertas ou poliamorosas quase sempre estão satisfeitas.
Por um motivo simples: a porta está aberta e é relativamente simples sair. Quem não está contente já foi embora.
* * *

A monogamia funciona?

Tem gente que diz que “relação aberta não funciona”.
E eu respondo:
“Hmm. Respeito muito sua opinião. Com certeza, você não estaria falando isso assim fora do nada! Senta aqui comigo e me conta sobre essas relações abertas que você acompanhou e como foi que elas não deram certo. Eu sempre quero aprender.”
Vocês talvez não acreditem mas, pasmem!, sempre que digo isso e me coloco aberto e disponível para ouvir as experiências dessas pessoas…. elas nunca tem NENHUMA vivência próxima com relacionamentos abertos para compartilhar!
Quem diria que as pessoas simplesmente verbalizavam preconceitos infundados assim na cara-dura, né?
Já eu, se o nome da brincadeira é “troca-troca de evidência anedótica”, posso ficar literalmente dias sem parar narrando a história de todas as relações monogâmicas cujo completo fracasso eu acompanhei de perto.
Reparem que não estou dizendo que a monogamia não funciona: estou dizendo que é um preconceito babaca e mal-informado simplesmente declarar que “relações abertas não funcionam”, especialmente quando não se tem nenhuma vivência nem conhecimento do assunto.
O relacionamento que funciona com uma pessoa não funcionaria com outra. O que funcionaria em uma fase da nossa vida não funcionaria em outra. Etc etc. As variáveis são infinitas.
Aliás, em termos de relacionamento, como definir sucesso ou fracasso?
Sempre que falo dos dilemas de viver relações abertas, alguém comenta:
“Tá vendo? É por isso que não dá certo!”
Mas, na realidade, nada dá certo: a gente vive um dia de cada vez e, no fim, todos morremos e o sol explode.
Não é por isso que não vamos tentar. Não é por isso que vamos nos enterrar em relacionamentos repressivos e opressores. A vida é muito curta.
O melhor que podemos fazer é escolher a opção que nos parece a mais ética e a mais acertada e, então… VIVER.
poliamor, por carlos latuff
poliamor, por carlos latuff

Quando revelar seu relacionamento aberto

Ninguém tem nada a ver com os pactos do seu relacionamento. Recomendo fortemente que todos os praticantes do poliamor mantenham esse estilo de vida em segredo — ou, no mínimo, que o exerçam com discrição.
A ditadura da monogamia institucionalizada é cruel, especialmente com as mulheres: o homem às vezes é visto como garanhão, às vezes como corno; a mulher é sempre (sim, você adivinhou) a puta.
Vale a pena lembrar: o que você não diz, sempre tem a opção de dizer no futuro; o que você diz, nunca pode ser desdito.
Entretanto, se já estamos em um relacionamento, aberto ou não, e vamos começar a nos relacionar com uma nova pessoa, seria extremamente antiético manter esse segredo.
Existe muita discussão sobre esse ponto. Se a revelação vier muito cedo, pode assustar a maioria das pessoas:
“Ih, não me mete nesse rolo, não!”
Se vier muito tarde, a pessoa pode se sentir traída:
“E você esperou até depois do sexo pra me contar isso, seu canalha?!”
Na minha experiência, a melhor hora é quando já aconteceu algo concreto que solidifica o interesse (um beijo, um toque, uma promessa específica de sexo, etc), mas nada ainda de muito sério ou que possa significar compromisso (sexo, boquete, juras de amor eterno, etc).

Poliamor.

A monogamia é patriarcal e machista

O direito ao amor livre, às relações abertas e ao poliamor são bandeiras feministas por definição.
O homem sempre teve o direito de pular a cerca escancaradamente, nunca foi morto “em defesa da honra” por suas “indiscrições” e a sociedade praticamente ordenava à mulher que, em nome dos filhos e da família, perdoasse o marido (“homem é assim mesmo”) pelo adultério que ela teria sido morta se cometesse.
Defender as relações abertas, o amor livre e o poliamor significa, de modo bem concreto e revolucionário, dizer que as mulheres têm direito de desfrutar das mesmas liberdades sexuais que os homens sempre desfrutaram.
Se isso não é feminismo, não sei mais o que é.
(Naturalmente, um poliamor imposto seria tão ruim quanto a monogamia quase-compulsória de hoje. A liberdade feminista está em dar a todas as pessoas o direito de se juntarem nos arranjos amorosos e sexuais que mais lhes agradarem, incluindo aí até mesmo a monogamia.)
* * *
A meme do poliamor.
A meme do poliamor.

Para onde está indo seu relacionamento?

Existe uma pessoa que eu amo.
Essa pessoa é um ser independente, livre para beijar (e jogar bola), transar (e cozinhar), amar (e fazer ioga) com quem ela quiser.
Ela não tem compromisso algum comigo, com exceção dos compromissos fluidos que decorrem da amizade e do afeto compartilhados.
Ela me acompanha em muitos momentos e não em outros.
Quando está comigo, é sempre lindo.
Quando não está, duas coisas acontecem:
Em primeiro lugar, sou feliz de outras maneiras, com outras pessoas, fazendo outras coisas. Embora eu a ame, não preciso dela para ser feliz. E nem ela de mim. Isso é libertador.
Em segundo lugar, confirmo ainda mais que a amo. Sinto falta dos seus ossinhos protuberantes do quadril, do seu jeito de bizarro tomar limonada com sal, de beijar seus pés até ela dormir, de ser acusado de romantismo quando escrevo textos como esse.
Então, quando ela escolhe voltar para os meus braços, sem que nenhum compromisso ou obrigação nos una, quando poderia estar em qualquer lugar fazendo qualquer coisa com qualquer um, eu me sinto amado, mesmo que ela negue.
(Não acredito no que as pessoas dizem, acredito no que fazem. Se ela diz que não me ama mas se comporta como se amasse, então, na prática, na realidade, do modo mais concreto possível, ela ama. E isso vale pra tudo.)
A sociedade nos enfia muitos dogmas na cabeça. Que só podemos amar uma pessoa. Que quem ama sente ciúmes.
Ou que as relações têm que sempre andar pra algum lugar, avançar, atingir metas, “evoluir”.
Quando me sinto amando muito, às vezes tenho esses rompantes de “levar o relacionamento para a próxima etapa”.
Mas essa ânsia não resiste a três segundos de reflexão.
Afinal, quais são essas metas? Morar junto, noivar, casar, ter o primeiro filho, comprar uma casa?
Nem eu nem ela queremos nada disso. Nada disso nos parece minimamente desejável.
Confesso que ainda tenho dentro de mim essa vontade súbita de “ir a algum lugar com o relacionamento”, mas, quando olho pra frente, não existe nenhum lugar para onde eu queira ir.
Já estou no melhor lugar onde poderia estar.

A monogamia se alimenta do medo

Às vezes, quando falo de relações abertas e poliamor, me perguntam:
“Você não tem medo de perder sua companheira?”
E respondo que sim. Claro. Muito. Eu me pélo de medo. Todo dia. Todo santo dia. Todo.
Mas e daí? Qual seria a solução?
Se tivéssemos uma relação monogâmica ao invés de aberta, o risco de perdê-la seria o mesmo.
Se fôssemos casados ao invés de solteiros, o risco de perdê-la seria o mesmo.
Se morássemos juntos ao invés de em casas separadas, o risco de perdê-la seria o mesmo.
Se ela estivesse presa a mim por um contrato assinado em cartório, por promessas feitas na empolgação do flerte e por todas as convenções românticas da nossa sociedade, ainda assim o risco de perdê-la seria o mesmo.
Quase todos os relacionamentos que conheço prendiam seus cônjuges um ao outro com todas as falsas algemas acima… e quase todos acabaram.
Pior ainda, muitos dos que não acabaram (teoricamente, os que deram certo!) deveriam ter acabado. As falsas algemas serviram não para garantir a felicidade do casal mas para prender um corpo morto a outro, duas pessoas quase estranhas hoje unidas apenas pelo cheiro de carne podre.
Então, sim, tenho medo de perder minha companheira.
Mas tenho ainda mais medo de eu me perder dela e ela se perder de mim, e continuarmos juntos… só porque assinamos um papel, só porque temos um filho, só porque moramos no mesmo apartamento e não temos para onde ir.
Nenhum grande amor merece virar um triste arremedo de si mesmo.
É natural que tudo acabe. nosso grande amor vai acabar, depois nossas vidas, depois nossas línguas, nossos países, nosso planeta, até nosso sol.
É natural que tenhamos medo dessa entropia que, minuto a minuto, nos consome e também consome tudo o que conhecemos e que, finalmente, vai apagar todas as estrelas uma a uma.
O que não é natural é nos escravizarmos, nos acorrentarmos, nos enlouquecermos uns aos outros para fugir do medo e da entropia, da morte e do fim.
Então, sim, tenho medo de perder minha companheira.
Mas isso não muda nada.

Marchando pelo poliamor.
Marchando pelo poliamor.

A monogamia se alimenta das dependências que ela mesma cria

Uma ex namorada um dia me olhou no olho e perguntou:
“Você precisa de mim?”
E dei a única resposta possível:
“Não.”
Ela fez aquela cara de cachorro sem dono, e eu expliquei:
“Claro que não preciso de você, ué. E nem você de mim. Somos duas pessoas adultas e independentes que se sustentam. Eu te amo muito e estou com você por escolha própria. Quando nosso relacionamento fatalmente terminar, seja por iniciativa minha, sua ou mútua, eu vou sofrer e ficar triste (porque te amo e escolhi estar com você, mesmo que tenha depois desescolhido ou sido desescolhido) mas, em breve, a vida vai voltar ao normal, e vou conhecer outra pessoa, e vou dar outro primeiro beijo, e serei feliz novamente. Então, não, meu amor, não preciso de você para nada.”
Ao que ela tascou:
“Porra, você não é nada romântico!”
E eu:
“Poxa, acho muito mais romântico estar com alguém 100% por minha livre e espontânea vontade de pessoa adulta independente do que, cruz credo, estar com alguém porque preciso dela. Como isso pode ser bom, saudável, positivo, romântico?”
Aliás, pensando bem, preciso dela para quê? Preciso como? Por muleta emocional? Pra pagar as contas? Por que só essa outra pessoa me atura?
Não quero nunca estar com alguém que precise de mim. Quero pessoas que estejam comigo por vontade própria e que se sintam livres e capazes de irem embora a qualquer momento.
* * *

A monogamia não é a única maneira de constituir família e criar filhos

Sempre que falo de poliamor e relacionamentos abertos, alguém pergunta:
“Mas e os filhos? E se eu quiser constituir uma família?”
Sinceramente, a escolha de ter ou não ter crianças e a escolha de viver ou não relações abertas e poliamorosas são duas esferas bem diferentes.
Em primeiro lugar, a decisão de viver relacionamentos abertos não influencia em nada as suas crianças porque, antes de tudo, quem disse que elas precisam saber qualquer coisa da sua vida amorosa e sexual?
Assim como as crianças em geral não sabem quando o pai e a mãe transam um com o outro, elas também não precisam saber quando o pai e a mãe vão transar com outras pessoas. Ou, digamos, se o pai e a mãe, na privacidade do seu quarto, praticam dominação e submissão e estão se chicoteando. Ou praticando qualquer outra atividade sexual.
Assim como o papai e a mamãe muitas vezes saem com pessoas do seu círculo de amizades, para passear, jantar ou viajar, também poderiam estar saindo com essas mesmas pessoas para namorar ou transar, fazer swing ou suruba, e as crianças não teriam como saber e, aliás, não teriam nada a ver com isso.
Muitos e muitos casais vivem e viveram longas e frutíferas vidas poliamorosas, ao mesmo tempo em que criaram filhos, sempre cuidando tanto para suas relações amorosas e sexuais não interferissem na sua esfera familiar, mas também, e isso é muito importante, cuidando para que sua família não interferisse em suas relações amorosas e sexuais.
Afinal, papai e mamãe também precisam de privacidade para viver suas vidas de pessoas adultas livres e sexuais
Em segundo lugar, e muito mais importante: e daí se as crianças souberem?
As crianças vêm ao mundo livres de preconceitos e somos nós que enchemos suas cabeças de porcaria.
Quando os pais e as mães conservadoras perguntam, apavoradas, “mas, se homem puder casar com homem, como vou explicar isso para minha filhinha?”, o que as apavora é justamente sua incapacidade de transmitir às crianças o seu próprio horror e preconceito. Para uma criança, antes de sofrer a lavagem cerebral heterocapitalista-monogâmica, nada poderia ser mais simples e fácil de entender do que o fato de que o tio Pedro e o tio João são tão casados quanto o tio Jaime e a tia Renata.
Ou que o papai e mamãe se amam e constituíram família, mas que o papai também ama e namora a tia Clarice, assim como mamãe também ama e namora o tio Abraão, que é muito legal e me leva no estádio de futebol no domingo, porque ele gosta, e mamãe gosta, mas papai odeia, então papai aproveita o domingo pra sair com a tia Clarice!
Se o parágrafo acima te parece horrível, doente, complexo, talvez seja apenas o lixo dos séculos deformando seu cérebro.
As crianças querem paz, segurança, estabilidade, amor, carinho.
Nenhuma criança será mais feliz do que aquela criada por pais e mães felizes, satisfeitos, cúmplices, amorosos entre si e com outras pessoas, em uma atmosfera de tranquilidade e confiança.
O que traumatiza as crianças não é saber que a mamãe é capaz de amar duas pessoas diferentes, algo muito natural e sadio, mas sim testemunhar gritaria, ciumeira, violência, acusações.
Muitos e muitos casais vivem e viveram longas e frutíferas vidas poliamorosas enquanto criavam filhos que sempre souberam disso e encararam com naturalidade o poliamor, crianças que foram criadas e educadas para terem a maturidade emocional de não se deixar levar pelo ciúme e pela possessividade.
Na verdade, em muitos casos, as parceiras amorosas e sexuais dos pais e das mães também acabaram criando ligações emocionais profundas com as crianças, e formando-se extensas redes familiares de relacionamentos.

Uma família poli.
Uma família poli.

A monogamia é restritiva

Existem diversos tipos de pactos poliamorosos. Talvez os dois grupos principais sejam: “não quero detalhes” e “sinto tesão em saber todos os detalhes”.
Respeito o primeiro grupo, embora eu ache que seja um pacto bastante problemático. Com o tempo, a relação pode ficar tão cheia de segredos e lacunas, silêncios e desconfianças quanto o pior e mais adúltero relacionamento monogâmico.
Os gurus do amor monogâmico às vezes avisam:
“Cuidado quando seu marido ou esposa aparece com um tesão súbito e inexplicável! Provavelmente, estão tendo um caso!”
É verdade: muitas vezes, sexo quente e clandestino na hora do almoço pode fazer com que uma das cônjuges recupere o desejo há muito perdido pela outra.
Pois bem, ao contrário do que diz a monogamia (e os gurus sabem disso, ou não dariam o conselho acima), sexo e amor e tesão não são jogos de soma-zero. Quanto mais amamos, mais amor temos para dar. Nada desperta tanto o tesão quanto mais tesão.
Por tudo isso, prefiro o segundo pacto: “quero saber”.
Quando eu ou minha companheira voltamos de estar com outras pessoas, além de trazer novas vivências e experiências, talvez um novo jeito de dedar, talvez uma nova história de vida, também estamos renovados e cheios de tesão, com novas histórias para compartilhar, com novas pessoas em nossas vidas. Livres, felizes.
Todas as pessoas com quem minhas companheiras já se relacionaram, longe de me “tomarem” algo ou de me prejudicarem de qualquer maneira, me adicionaram vivências lindas e incríveis. A maioria delas acabaram se tornando algumas das pessoas que mais gosto nessa vida, seja como amigas, amantes ou, por que não?, ambos.
Afinal, eu e as pessoas com quem minha companheira se relacionam já temos um enorme ponto de contato: minha companheira. Como não confiar no bom-gosto da pessoa que me escolheu?

O que querem as pessoas que praticam o poliamor

Não queremos que você também se torne praticante de poliamor. Na verdade, não ligamos a mínima para como as pessoas monogâmicas escolheram viver suas vidas.
Queremos somente que não venham nos dizer como viver nossas vidas. Queremos o direito de escolher uma outra vida, um outro tipo de relacionamento.
Não somos anti-monogamia. Queremos apenas que a monogamia deixe de ser anti-nós — como é e sempre foi.
A família nuclear monogâmica heterossexual é tão válida como qualquer outra, mas ela não é “a norma”, “o normal” ou como algo que a modernidade corrompeu mas deve ser “resgatada”. Resgatar de onde? Normal em relação a quê?
Em milhares de anos de história dos relacionamentos humanos, passando por todas as combinações possíveis e imagináveis, esse pretenso paradigma não foi a regra nem mesmo na pequena parte do mundo que pretendeu fazer dele a regra: por exemplo, hoje nos EUA apenas 25% das famílias são a típica família nuclear monogâmica heterossexual.
Só muita ignorância da diversidade cultural humana explica considerar esse tipo de família como a regra geral da espécie em todos os tempos.
Sobre isso, recomendo o artigo “Iconic ‘nuclear’ family is a work of fiction” (“A família nuclear icônica é uma ficção”), ou o livro “O mito da monogamia”, que traça as origens culturais da monogamia pelas sociedades humanas e por outras espécies animais.
Recomendo também os dois livros de Roberto Freire, “Sem tesão não há solução” (1987) e “Ame e dê vexame” (1990). Ninguém escreveu sobre sexo e liberdade, amor e alegria, no Brasil como Roberto Freire. Ele é um dos meus mestres e um do grandes inspiradores da minha série de textos, “As Prisões”. Você pode baixar os livros clicando nos títulos acima, ou clique aqui para ler os melhores trechos, selecionados por mim.
Por fim, se você tem preguiça de ler, e especialmente se sentiu algum tipo de reação agressiva ao meu texto, te peço para assistir o curta-metragem abaixo, “Poliamor“, de José Agripino, sobre pessoas que fizeram a opção de viver um amor diferente.
Talvez você perceba que são pessoas como você e eu.

Poliamor from Zé Agripino on Vimeo.

“Cada um é cada um, né?”: um aviso final às pessoas que se sentiram atacadas

Escrevo sobre estilos de vida alternativos não para convencer as pessoas que estão satisfeitas com sua opção pela escolha da maioria (faz sentido tentar convencer alguém que deus não existe ou que a monogamia é castradora?), mas para mostrar às pessoas insatisfeitas que a escolha da maioria é somente isso: uma ESCOLHA.
Que elas não precisam escolher o que todo mundo escolheu. Que existem outras possibilidades, outros caminhos, outras opções. Que não estão sozinhas. Que não são as únicas que pensam assim. Que não são loucas por rejeitar o caminho mais trilhado. Que são livres. Livres.
Esse texto é uma conversa entre pessoas insatisfeitas que estão buscando por outras escolhas e refletindo sobre como operacionalizá-las.
Se você, por outro lado, está feliz com suas escolhas, então essa conversa não é para você. Nem tudo que alguém escreve, ainda mais se a pessoa nem te conhece, é sobre você, gira a sua volta, quer te convencer de alguma coisa. O assunto não é você. Fica em paz e seja feliz. E, um dia, quem sabe, se suas escolhas começarem a pesar e te oprimir, você sabe onde estamos. Sinta-se sempre livre para juntar-se a nós.
* * *

Oficina “Prisão Monogamia”, no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte

Há onze anos, escrevo sobre aquilo que chamo de “As Prisões“:
São as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida. são as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido.
Comecei a questioná-las uma a uma: verdade // dinheiro // privilégio // sexismo // racismo // monogamia // religião // patriotismo // escolhas // respeito // certezas // os outros // medo // ambição // felicidade // narcissismo.
Nos últimos meses, tenho viajado o Brasil falando sobre As Prisões. Uma conversa experimental, sempre no fim-de-semana, um espaço livre para todos compartilharem suas histórias, para todas as certezas serem chacoalhadas. As próximas são em Belo Horizonte, no dia 1º de dezembro, e em São Paulo, no dia 15. (Para mais detalhes, vídeos, depoimentos de quem foi, roteiro completo da palestra, tudo isso, veja aqui.)
Agora, decidi criar oficinas sobre os dois assuntos que suscitaram mais interesse, mais troca, mais debate, mais dúvidas: a “prisão dinheiro” e a “prisão monogamia“.
A ideia é ser uma experiência mais intimista e, ao mesmo tempo, mais prática. Com menos pessoas, mais tempo e mais espaço para se conhecerem, trocarem vivências, se ouvirem, se ajudarem.
Para quem acha que tem alguma coisa errada com o nosso modelo atual de amor romântico monogâmico possessivo. Para quem tem curiosidade sobre modelos alternativos de relacionamento. Para quem rejeita o ciúme e anseia por mais liberdade. Para quem quer começar a experimentar com relações abertas, poliamor, trisais, e não sabe como. Para quem quer viver uma vida diferente, mais livre, mais verdadeira, reprimindo menos, sofrendo menos repressão.
Para quem está confuso, perdido, sem saber onde ir ou como fazer. Para quem quer conhecer pessoas que estejam na mesma confusão. Para quem quer conversar sobre suas dúvidas. Para quem não está buscando respostas, mas sim interlocutores.
Se é o seu caso, seria muito legal te conhecer pessoalmente e ouvir suas histórias.
A primeira oficina “Prisão Monogamia” será no Rio de Janeiro, dia 23 de novembro. Depois, Belo Horizonte, dia 2 de dezembro, e São Paulo, dia 17. Para saber mais detalhes e se inscrever, clique no nome da sua cidade, acima.
E eu te agradeço.

Aviso sobre linguagem e gênero

O texto acima fez uma valente tentativa de ser unissex e usar uma linguagem de gênero sempre neutra. Todas as explicações e argumentos, sem exceção, se aplicam igualmente a homens e mulheres, pessoas cis e trans*, pessoas hétero, homo e bissexuais. Se alguma frase ou construção pareceu excluir essa ou aquela identidade, sexo, gênero ou orientação, foi descuido meu. Por favor, avisem e vou corrigir. Para mais detalhes sobre como utilizar uma linguagem menos sexista, por favor, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua.
 

Fonte:http://papodehomem.com.br/a-monogamia-e-uma-prisao/

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